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19/08/2014

IVAN MARTINS - Amor não se improvisa

Só damos aos outros aquilo que andamos recebendo a vida inteira

Uma das minhas vizinhas de prédio gosta de me lembrar quanto pareço feliz desde que me casei. A gente se encontra no elevador, e ela, invariavelmente, observa que continuo com o sorriso dos homens apaixonados. Eu rio, embaraçado e contente, e conversamos um pouquinho. Além de gentil e afetuosa, minha vizinha é romântica. Ela perdeu o marido há pouco tempo, depois de um casamento de 30 anos, e projeta nas pessoas ao redor um pouco da felicidade que viveu. Ao agir assim, de maneira tão doce, ela me lembra que as pessoas dão ao mundo aquilo que receberam. Pode ser amor e gentileza, pode ser o contrário.

Isso é muito claro quando a gente entra na intimidade de um relacionamento. Em pouco tempo, começamos a perceber do que a outra pessoa é feita. Ou, melhor dizendo, de que tipo de experiência amorosa ela é constituída. Pode ser de um amor tranquilo e seguro, que resulta num tipo de gente. Pode ser de um amor escasso e algo desesperado, que dá outro tipo de ser humano. Pode ser - na pior das hipóteses - da falta de amor (ou da percepção da falta de amor, que dá na mesma). Dela resulta uma gente arisca, dura, refratária aos próprios sentimentos e aos dos outros.

A experiência universal sugere que a gente não escolhe por que tipo de pessoa se apaixonará. Quando se dá conta, já aconteceu - e estamos envolvidos, até o pescoço, com alguém que pode ser muito difícil de amar, por ter as piores experiências no assunto. Nenhum de nós tem currículo perfeito nesse tema. Posta no divã de um analista, a maioria revelaria buracos enormes na sua biografia afetiva. Alguns, porém, têm traumas mais visíveis, rombos escancarados que se traduzem, sobretudo, na falta de naturalidade quando se trata de afeto. Gostar para eles é difícil, doloroso, complicado. Receber o sentimento do outro também. O cotidiano da relação, que exige a troca de sentimentos simples, fica truncado. É como se as pessoas falassem, afetivamente, línguas diferentes. Elas não se compreendem, porque a uma delas (ou às duas) falta o vocabulário essencial do amor.

Talvez, a muitos, isso pareça abstrato. Para mim, é muito concreto.

Tendo vivido e convivido com pessoas muito diferentes, me é claro como a experiência amorosa (familiar e romântica) produz diferentes atitudes diante do amor - e como essas atitudes são modificadas pelas experiências da vida adulta. Quando começamos a nos relacionar eroticamente, somos adolescentes. Levamos para os braços do outro, quase intactas, nossas questões infantis e familiares. À medida que a gente cresce e vai tendo outras experiências, os sentimentos evoluem. Ninguém está pronto e acabado aos 20 ou aos 40 anos. Nem aos 70, acho.

A impressão de não ser a criança mais amada do mundo pode diminuir ou aumentar nos primeiros envolvimentos. A sensação adolescente de ser o centro das atenções (ou de ser rejeitado pelo mundo) pode ser negada ou confirmada por um grande amor. O medo e a insegurança podem ser ampliados numa sequência de relações instáveis, ou reduzidos por um relacionamento intenso, seguro e duradouro. A vida não para de nos formar. Quem a gente escolhe para estar a nosso lado tem papel fundamental nessa formação.

Por isso tudo, a atitude da minha vizinha me parece tão bonita. Ela sabe, por ter vivido, que as pessoas se transformam pela experiência do amor. Divulga esse evangelho de uma forma discreta e efetiva. Na última vez em que me disse que eu parecia feliz, eu acabara de ter uma briga estúpida e desnecessária com minha mulher. A conversa no elevador, na saída para trabalho, me ajudou a lembrar quanto gosto e quanto essa relação é importante para mim. Horas depois, peguei o telefone e liguei para pedir desculpas. 

Talvez fizesse isso de qualquer maneira, mas gosto de pensar que minha vizinha me ajudou a lembrar que fazer as pazes era urgente e necessário.




18/08/2014

ARTUR XEXÉO - Quando eu tinha 10 anos

Quando eu tinha 10 anos, eu morava na Miguel Lemos, estudava no Mallet Soares e me preparava para fazer a primeira comunhão na São Paulo Apóstolo.

Todo mundo se lembra de Gagarin, mas, quando eu tinha 10 anos, quem fazia sucesso era Titov, que, aos 26 anos, tornou-se o mais jovem astronauta de todos os tempos. Ou cosmonauta, como se dizia quando eu tinha 10 anos.Titov foi também o primeiro homem a dormir no espaço. Existe uma cratera na face oculta da Lua que foi batizada de Titov.

Num patrocínio da Casa Fernandes, a TV Rio apresentava “Ivon Cury é assim”, todas as quintas-feiras, às 21h05min, quando eu tinha 10 anos. Mas eu não assistia porque, na mesma hora, na TV Tupi, tinha “Espetáculo Tonelux”, com Consuelo Leandro, Grande Otelo, Neide Aparecida, Bené Nunes, o balé de Juan Berardi, os textos de Haroldo Barbosa e a direção de Geraldo Casé. E toda sexta-feira, às 21h42min, tinha “Travessuras do Golias”, também na Tupi

Quando eu tinha 10 anos, quem queria parar de fumar usava Nicotiléss, que era “inofensivo ao organismo”. Mas ninguém queria parar de fumar quando eu tinha 10 anos.

Todo mundo aprendia inglês no Ibeu, francês na Aliança, latim no colégio e não existia outra língua, quando eu tinha 10 anos.

Quando eu tinha 10 anos, o Rubem Braga anunciou numa crônica que iria ser embaixador do Governo de Jânio Quadros. Ao mesmo tempo, declarava que estava gripado. Só Rubem Braga sabia dar a mesma relevância a um cargo de embaixador e a uma gripe.

Compravam-se aparelhos de ar condicionado Westinghouse na Casa Garson, voava-se para Brasília em quadrimotores de alta classe da Real, usavam-se camisas Volta ao Mundo, quando eu tinha 10 anos.

Quando eu tinha 10 anos, inauguraram uma estátua do Bartolomeu Mitre em frente à Embaixada da Argentina.

As festas de aniversário eram animadas com bolos de sorvete Kibon. Eu abria O GLOBO para fazer o Jogo dos Sete Erros e ler as historinhas do Mandrake. Meu padrinho morava no Leblon, mas eu nunca ia lá por que era longe pra chuchu. Quando eu tinha 10 anos, dizia-se longe pra chuchu.

Quando eu tinha 10 anos, Maysa gravou um disco em Nova York no qual cantava pela primeira vez uma bossa nova, “Quem quiser encontrar o amor”, de Geraldo Vandré. Desde então, Vandré e a bossa nova nunca mais foram vistos juntos.

Quando eu tinha 10 anos,  a matogrossense Maria Stael Abelha, renunciou, e o título de Miss Brasil foi transferido para a gaúcha Vera Maria Brauner Menezes. Ela ficou em segundo lugar no Miss Beleza Internacional, ganhou os títulos de Miss Trajes Típicos e Miss Oratória e ainda quatro mil dólares. Com o dinheiro, comprou uma casa para a mãe. Quando eu tinha 10 anos, uma casa valia quatro mil dólares.

Eu fui ao Cine Riviera assistir a “Marido de mulher boa”, com Zé Trindade e Renata Fronzi, mas eu queria mesmo era ir ao Paissandu para ver “Vermelho e negro”, com a Danielle Darrieux, quando eu tinha 10 anos.


Quando eu tinha 10 anos, Walter Pinto apresentava no Teatro Recreio “O diabo que a carregue... lá pra casa”, “com a nova estrela Iris Bruzzi”. No Teatro Ginástico, Fernanda Montenegro, Italo Rossi e Sergio Britto estavam em cartaz com “O beijo no asfalto”. Morineau ocupava o Teatro Dulcina com “Frenesi”. E ainda havia uma campanha nos jornais que  implorava praticamente todos os dias: “Vamos ao teatro!”




O MILAGRE DA VIDA BEM VIVIDA - Mônica El Bayeh

Meu maior temor não é morrer, mas desaparecer das lembranças
Descobrir que vai morrer na verdade não chega a ser uma grande descoberta. Afinal, é a única certeza que se tem em tudo. Morreremos, isso nos torna absolutamente iguais. O recheio que tecemos entre o nascimento e a morte é que produz a grande diferença.
Lisa Russell, inglesa, tinha 37 anos, um marido, duas filhas de oito e treze anos e um câncer de pulmão inoperável. Tempo de espera para o inevitável? Dezoito meses, se muito. É de desesperar. Mas desesperar custaria uns minutos a menos, pense bem.
Saber que tem um prazo a gente sabe. Mas quando carimbam a data de validade no seu corpo, a coisa muda de figura. O cronômetro ganha som e cada andada aflige. Algo parecido com ter de fazer um gol nos últimos segundos do segundo tempo. Acelera, vai com tudo e dá seu melhor. Ou pendura logo as chuteiras, entrega o jogo e se dá por vencido. Triste se dar por vencido, né? Já morre antes, por conta.
Não me importo muito de morrer. Não que eu queira, não tenho a menor pressa. Que fique bem claro. Temo o sofrimento, não a morte propriamente dita. Porque, se tiver prorrogação e vidas após a morte, vai ser beleza. Se não tiver, é game over. Não vou nem saber mesmo, então está tranquilo também.
O pior da morte, pelo menos para mim, é imaginar os meus filhos sentindo falta de mim. Sou facilmente substituível em todo o resto. Mas deixar filho sozinho é minha pior agonia.
Lisa já havia perdido a mãe muito nova. E dela só tinha a vaga lembrança. A possibilidade de que o tempo fosse amarelando sua própria lembrança junto com as fotos lhe doeu. Ser esquecida é duro.  Mas não poder ficar na lembrança de quem tanto se amou, é ainda pior.
Foi assim que Lisa deu um cavalo de pau na sua história. Deve ter chorado, sim e muito. Não tinha a vida toda. Mas investiu na vida possível. Aproveitaria o que tinha, em vez de sentar e chorar pelo que não teria mais. Felicidade é decisão interna. Independe de dinheiro, fama, e pelo visto, saúde também. Lisa decidiu com o marido que construiriam juntos as melhores memórias de um tempo feliz.
Eles tinham um dinheiro guardado. Engraçado é que o hábito é poupar para imprevistos. Nos imprevistos, geralmente, o que nos vem à mente é desgraça. Poupamos para desgraças? Para coisas ruins que podem nos acontecer? É bom ter reservas para qualquer eventualidade.
Lisa se submeteu à quimioterapia. Ficou careca. Mas não se entregou. Planejaram viagens. Pegaram as filhas e viajaram para Lanzarote, Bulgária e Turquia. Resolveram casar de novo, para que as filhas pudessem participar da cerimônia. Comemoraram tão intensamente a vida que lhes restava que o tumor diminuiu a ponto de quase não ser mais visível.  E o risco de morte foi descartado.
Milagre? É o milagre da vida. A vida bem vivida faz milagres em todos nós. Vejo mágoa virar doença, se cristalizar em todo tipo de mal e de dor. Temos nossas coleções de mágoas e desilusões. Vamos espalhando descuidadamente pelo caminho. Como roupa suja, usada, esperando o dia de lavar. Não lavamos. Nem recolhemos.
Carpimos despudoradamente, gastamos um tempo mais precioso do que se imagina. Será que o contrário é verdadeiro e felicidade cura? Será que o amor pela vida produz mais tempo de vida?
Seríamos um espécie de bomba-relógio pronta a se autodestruir ou, ao contrário, se auto reconstruir? Porque, se for assim, vale o investimento na opção de ser feliz. E mergulhar mesmo com medo, quando a vida convidar.
Há religiões que acreditam que os desafios vêm para que a gente aprenda, melhore, cresça. Nem sempre a gente percebe. Muitas vezes é bem difícil mesmo e, ao invés de melhorar, a gente encrua. Mas se é viver ou viver, que se desfrute plenamente nossa melhor e única opção.
O amor adoça as lembranças amargas que se cristalizam e nos adoecem. O cuidado e a delicadeza de querer se bordar na memória alheia, passando por cima de todo o medo e de toda a dor, isso é prova de amor. O amor cura.



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