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22/07/2014

CRISTIANE SEGATTO - O cigarro levou um imortal

Um depoimento precioso do escritor João Ubaldo Ribeiro sobre o vício 
que o matou. Estamos fazendo o suficiente para combater o tabagismo?


Perdemos nesta sexta-feira (18/07/2014) o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro, imortal da Academia Brasileira de Letras. Aos 73 anos, Ribeiro morreu de embolia pulmonar em sua casa, no Rio de Janeiro. A doença foi provocada pelo cigarro. O escritor baiano fumava desde a adolescência.

Em 2008, o autor de “Viva o povo brasileiro” deu um depoimento à Rádio Pulmão Bom, do Centro de Apoio ao Tabagista. A rádio é uma das tantas iniciativas do pneumologista Alexandre Milagres, um ativista e comunicador que não mede esforços para combater o mais grave problema de saúde pública em todo o mundo.
  
Alexandre está inconsolável. “O cigarro levou mais um amigo”, diz. “Não consegui que ele me permitisse ajudá-lo a parar de fumar”. O vídeo de 22 minutos, disponível aqui, é um registro precioso e sincero sobre a longa convivência de Ribeiro com o vício.
“Tenho que parar de fumar, mas isso é um esforço terrível”, diz o escritor, no áudio de 2008. “Reconheço minha condição de viciado, mas não consigo parar. Vou fumando. Disso não tenho o menor orgulho.”
                                                 
Na juventude de Ribeiro, poucos escaparam do cigarro. Socialmente, fumar não era apenas aceitável. Era também desejável. Ele conta que começou a fumar para impressionar uma namorada, um ano mais velha e fumante.

Certa vez, enquanto namoravam no batente do edifício, ela perguntou a uma amiga.

- Lourdes, você tem um cigarro? Aqui é contrário. A mulher é que fuma, não o homem.

“Vi ali uma denúncia de minha mal delineada masculinidade”, conta ele. Desde aquele dia, Ribeiro começou a fazer força para se viciar. Colocava na boca um cigarro Columbia, e mesmo enjoado, tentava ficar à altura da namorada.

A publicidade e o cinema foram as principais estratégias da indústria tabagista para viciar aquela e as gerações seguintes. Abandonar o cigarro não é impossível, mas é uma tarefa árdua.
Outras personalidades brasileiras contaram a ÉPOCA, em texto e vídeo, como conseguiram parar de fumar. Nesta outra reportagem, a polêmica recente sobre o cigarro eletrônico.

Como recorda Ribeiro, nos filmes de guerra dos anos 50 era comum ver um sargento tirar um cigarro da própria boca e oferecê-lo a um combatente agonizante. “Antes de morrer, o herói de guerra recebia o cigarrinho da saideira.”
  
Nada disso seria aceitável hoje. Nas últimas décadas, houve muitos avanços na conscientização sobre os males do tabagismo e na aprovação de leis para inibir a propaganda e o consumo de cigarros. Com 25 milhões de dependentes de nicotina, o Brasil precisa avançar muito mais.

Para início de conversa, é preciso retirar a discussão sobre tabagismo do âmbito do estilo de vida e colocá-la onde sempre deveria ter estado: o das drogas.


Em 2008, a função respiratória de Ribeiro já estava comprometida. Ainda assim, ele acreditava ser um homem de sorte por não ter sido atingido brutalmente por doenças graves provocadas pelo vício. “Bato na madeira e me benzo quando digo isso”, afirmou ele. Estamos fazendo o suficiente para evitar 200 mil mortes como essa todos os anos?




IVAN MARTINS - Fidelidade ou lealdade?

A gente se preocupa demais com uma e esquece da outra, 
que talvez seja mais importante

Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra “lealdade”. Deve ser por causa de um livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.

Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício. Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós.

Antes que se crie a confusão, diferenciemos: lealdade não é o mesmo que fidelidade, embora às vezes elas se confundam. Ser fiel significa, basicamente não enganar sexual ou emocionalmente o seu parceiro. É um preceito, uma regra que se cumpre ou não se cumpre, uma espécie de obrigação. O custo da fidelidade é relativamente baixo: você perde oportunidades românticas e sexuais. Não tem a ver, necessariamente, com sentimentos. Você pode desprezar uma pessoa e ser fiel a ela por medo, coerência, falta de jeito ou de oportunidade. Assim como pode amar alguém perdidamente e ser infiel. Acontece todos os dias.

Lealdade é outra coisa. Ela vai mais fundo que a mera fidelidade. Supõe compromisso, conexão, cuidado. Implica entender o outro e respeitá-lo no que é essencial para ele - e pode não ser o sexo. Às vezes o outro precisa de cumplicidade intelectual, apoio prático, simples carinho. Outras vezes, a lealdade requer sacrifícios maiores.

A primeira vez que deparei com a lealdade no cinema foi num filme popular de 1974, Terremoto. No final do drama-catástrofe, o personagem principal – um cinquentão rico, heroico e boa pinta – tem de escolher entre tentar salvar a mulher com quem vivia desde a juventude, com risco da sua própria vida, ou safar-se do desastre com a jovem amante. Ele escolhe salvar a velha companheira e morre com ela. Parece apenas um dramalhão exagerado, mas desde Shakespeare o drama ocidental está repleto de escolhas desse tipo. É assim que nos metem conceitos elevados na cabeça. Vi esse filme com 16 e 17 anos e nunca mais deixei de pensar na lealdade em termos drásticos.
       
A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.

Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. 

Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.

Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana, precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. A fidelidade nos leva até a esquina. A lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.



WALCYR CARRASCO - Gente é descartável?

Emprego, amizade e até o amor – 
será que tudo agora tem prazo de validade, 
como lata de ervilhas?

Convidado a jantar na casa de uma amiga, estranhei a falta de sua funcionária de muitos anos, sempre responsável por delícias gastronômicas. Estranhei. Perguntei pela cozinheira, sempre sorridente, que eu já cumprimentava com beijinho.

– Ah, demiti.

– Aconteceu alguma coisa?

– Ela passou do prazo de validade. Chamei outra.

A resposta me arrepiou. Cada vez ouço mais que alguém “passou do prazo de validade”. A expressão se inseriu no vocabulário. Como todos os elementos da linguagem, seu significado é maior que as palavras, simplesmente. Empresas costumam ser severas quanto ao que consideram como prazo de validade de um funcionário. Em geral, no máximo aos 60 anos, quando não aos 40, o executivo vai para a rua. Mesmo os de alto cargo. O argumento é sempre o mesmo, como ouvi certa vez de uma diretora de RH.

– A gente precisa renovar.

Alguém de 60 anos ou mais pode ser papa, presidente da República, e não diretor de departamento? Idade é necessariamente fator de renovação? Conheço jovens de cabeça fechada. Homens e mulheres maduros sempre abertos a ideias novas. Empresas, porém, têm esta política: envelheceu, perdeu. Quando alguém dedicou 20, 30 anos da vida a uma grande corporação, vai fazer o quê? Inicialmente, o demitido procura novo trabalho. Com muita frequência, seu currículo é preterido por alguém mais jovem. Às vezes se propõe a ganhar menos, aceita até uma posição menor. Ainda tem de ouvir o argumento:

– Achamos que era um cargo pequeno para você, que não se adaptaria. Merece mais.

Ele ou ela agradece, ganhou um elogio. E sai desesperado, porque o dinheiro no banco está acabando, o condomínio do apartamento de luxo, antes fácil de pagar, agora se tornou altíssimo, os filhos reclamam que querem grana para sair com os amigos, comprar roupas. Muitas vezes, o demitido monta empresa própria. Um grande erro. Em geral, acostumado a uma grande corporação, não consegue se virar com sua pequena empresa, sem estrutura. O dinheiro escoa, porque também não consegue diminuir o padrão de vida. Já vi o antigo CEO de uma empresa da área elétrica transformado em motorista de táxi. Como outros, montara a própria empresa, perdera tudo. Nunca mais conseguiu trabalho. Conheci outro motorista de táxi, antigo gerente, de porte médio. Ao ser demitido, depois dos 40, foi rápido:

– Vi meus amigos procurando emprego e batendo com a cara na porta durante um tempão, gastando o Fundo de Garantia, a grana da demissão. Esperei três meses, não apareceu nada, comprei o táxi e parti para outra.

Dei dois exemplos, a doméstica e o executivo, porque isso acontece em todas as classes sociais. As pessoas se tornaram descartáveis. Muitas vezes, quando entram em crise, por doença, separação, problemas, enfim, sua produtividade cai. Dão uma resposta indevida, demonstram nervosismo. O empregador resolve que passou do “prazo de validade”. No momento em que mais precisam de apoio, perdem o emprego. É difícil.
O mais chocante é que também tenho ouvido a mesma expressão para definir sentimentos e relações. Um amigo explicou sua separação.

– Nosso casamento passou do prazo de validade.

Como é? Então o amor é como uma lata de ervilhas, que vem com data de vencimento na tampa? Amizade também? Há muito tempo, quando minha avó Rosa, tão querida, morreu, fui ao enterro. Fiquei até colocarem o último tijolo no túmulo. De noite, recebi alguns amigos em casa, bati papo, mas com um nó no estômago, vocês sabem como é. De repente um deles se saiu com esta:

– Hoje, você está insuportável.

Nunca me senti tão agredido. Levantei e pedi a todos para saírem.

– Estou insuportável porque minha avó morreu, e isso dói muito – disse. – É melhor ficar sozinho.

Pediram desculpas, mas insisti para nos vermos outro dia. Creio que estava chato, irritado, sem sorrisos. Saíram ofendidos. Hoje, certamente diriam que nosso “prazo de validade” tinha acabado. Mesmo porque ficamos muito distantes a partir de então. Se eu não estava bem para participar da alegria alheia, me tornara descartável.


Tratar funcionários, amigos, amores como se tivessem a durabilidade de um pedaço de bacalhau, no máximo, é uma crueldade incorporada à vida de boa parte das pessoas. Se você acha que as pessoas têm prazo de validade, só precisa se fazer uma pergunta. Como agirá quando alguém disser que chegou o seu?




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