26 de mai de 2016

QUANDO A CRÍTICA É CONSTRUTIVA E QUANDO NÃO É?

Em uma de minhas conferências sobre esse tema, tão comum nas ciências e nas artes, fiquei surpreso ao constatar que boa parte do público presente não tinha clareza sobre o conceito, e entendia a crítica como sendo a “arte de apontar defeitos” ou mesmo algo como um direito insofismável de achincalhar o outro.

Tenho observado, também, em muitas escolas, onde alunos e pais de alunos concorrem em “criticar” o trabalho do professor, principalmente quando chamados à coordenação em virtude do péssimo rendimento escolar, seja pelo mau comportamento em sala de aula, seja pelos resultados desalentadores nos exames.

E nesse caso a “crítica” tem sabor de desforra e produz a ilusão de isenção.

Ao apontar os defeitos do professor, quando não da escola, alguns alunos e pais de alunos acreditam que podem, a partir daí, se eximir do cumprimento de seu papel como protagonistas do processo de ensino-aprendizagem.

Na crença popular essa ideia fica patente com o bordão:
Se meu filho tirou dez – é um gênio! Agora, se tirou zero é porque o professor e/ou a escola não presta!

Esse “criticar” mal executado presta um desserviço à comunidade, pois esvazia seu potencial de aprimoramento, tanto do professor quanto do aluno. Ao mesmo tempo, que, ao banalizar um dos principais direitos e atributos que tem o ser humano, que é o de criticar – expõe o que há de pior no ser humano:
- O egocentrismo.

E isso é manifestado, e de forma eloquente, na sua incapacidade de aplicar em si mesmo o rigor da severa crítica que prodigaliza aos demais.
E em muitas outras áreas isso é observado.
A pseudo-crítica das falhas estruturais como desculpa para não se cumprir com o seu papel!

Também tenho percebido em muitos fóruns na internet, onde o anonimato obtido pelo uso de um nickname e o trato impessoal usado em e-mails ou posts , transforma esse direito de criticar num pretexto para atacar, para achincalhar ou menosprezar a pessoa do outro lado.

Alguns pela simples diversão de discordar por discordar.
Outros pela necessidade de propagandear sua ideologia, sua crença, etc. e por essa razão atacar decididamente, não o artigo, mas o articulista.
Ou, ainda, esse ataques se darão por simples vaidade:
– “Afinal com que direito o articulista desse site ousa ser mais inteligente e/ou mais informado que eu”?

Ora, o termo “crítica” deriva etimologicamente do grego Kritikè e significa “discernir”.
Assim, criticar é em seu conceito político-filosófico, a faculdade de discernir o valor das coisas, dos eventos, dos feitos e das pessoas.
Está intimamente ligado ao juízo de valor e ao exercício da razão.

Segundo Kant, a crítica é uma avaliação ou um julgamento de mérito.
E tal julgamento pode ser:
• Estético, se contempla uma obra de arte;
• Lógico, se contempla um raciocínio;
• Intelectual, se contempla um conceito, uma teoria ou um experimento e
• Moral, quando contempla uma conduta.

Ao julgar, busca-se a equanimidade e a justiça.
O julgamento para ser equânime, deve ser isento da intencionalidade de provocar dano e pleno de recursos da razão, fundamentado evidentemente no conhecimento e no anseio pelo bem.

Na crítica, busca-se apontar não só os defeitos, mas também as qualidades e valores e com isso avaliar a extensão dessa mesma qualidade seja da obra de arte, do trabalho científico, do conceito, do argumento ou da conduta objetivando o seu reconhecimento, aprimoramento e/ou superação;

A crítica propriamente dita nunca é dirigida à pessoa. Sempre à suas ideias, obras, argumentos ou comportamentos.
Mais que um exercício de sintaxe, esse fato diferencia a crítica verdadeira do achincalhe.
Pois ideias, obras, comportamentos e argumentos não são a identidade.

A pessoa é categoria moral e é infinitamente maior que seu simples comportamento episódico ou somatório de algumas de suas ideias e argumentos ou o somatório de todas as suas obras.

O achincalhe, que significa humilhar, ridicularizar e debochar não é considerado em termos jurídicos ou filosóficos como “crítica” e sim uma perversão de seu significado.

Em caso público pode ter consequências sérias, tais como processos por perdas e danos, derivando o achincalhe para a injúria, calúnia e difamação – todos previstos pelo código penal.

De acordo com Dr. Ricardo Antônio L. Camargo, “também se configura o achincalhe quando se imputa a alguém fato depreciativo e inverídico ou quando se lhe diz algo gratuitamente ofensivo à dignidade e ao decoro”.

“O achincalhe é sempre corrosivo, é sempre destrutivo, é sempre a base de todos os conflitos que extrapolem motivos puramente materiais. Estereótipos, preconceitos e mesmo ódios passam a ser considerados como o metro pelo qual se medirá a bondade ou a maldade das condutas.”

“Quando o fato imputado constitui crime, estamos diante do tipo calúnia. Quando o fato é ofensivo à reputação, estamos diante da difamação. E quando se ofende a dignidade e o decoro de alguém, sem lhe imputar fato, o que se faz é injuriá-lo”.

Em resumo, a verdadeira crítica vale-se de argumentos consistentes, fundamentados no conhecimento e que objetivam julgamentos e avaliações sobre o valor (ou a falta dele) de uma obra, conceito, argumentos, experimentos ou conduta e nada tem a ver com ataques pessoais e achincalhes. Isso se denomina agressão.

A crítica, juntamente com o ceticismo e o princípio da falseabilidade, tem um papel preponderante na evolução da ciência.

Nesse contexto, sem a crítica muitos erros científicos seriam perpetuados.
Daí, propugnarmos na sociedade o desenvolvimento do espírito crítico e a defesa da liberdade para exercê-lo.

E ter espírito crítico é preconizar a capacidade humana de julgamento visando o bem comum. Criticar é julgar para escolher, para selecionar, para promover a melhora e a superação e exaltar o útil, o criativo, o ético e o estético, para o bem e evolução da humanidade.

Dessa forma, a crítica propriamente dita, corretamente praticada é sempre construtiva.
Mas, para tal necessita-se:
• Humildade;
• Senso de humanidade;
• Tato e polidez;
• Adequação;

E acima de tudo:
• Conhecimento.

Não há como criticar algo que não se conhece:
• Um crítico literário deve ter conhecimento sobre literatura.
• Um crítico de trabalhos científicos deve ter conhecimento pelo menos sobre a área científica objeto de sua crítica.

E assim por diante.
Ora, isso é óbvio!
No entanto, parece que no mundo de hoje as obviedades não são percebidas assim tão obviamente.
P/ Mustafa Ali Kanso

25 de mai de 2016

ALBERTO GOLDIN - Era um projeto simétrico, razoável e generoso


"CHAMO-ME MARÍLIA, (28), MORO COM O BERNARDO, (30) e nos relacionamos há sete anos. Sou bonita, me cuido... Quando o conheci, ele era magro, atraente, mas, há 2 anos, mudamos de cidade, por causa do trabalho...O Bernardo é extremamente dedicado e bem sucedido, mas isso prejudica sua vida pessoal, e nosso relacionamento.Não enxerga mais nada na frente dele, nem a mim, nem a ele mesmo. Engordou muito, perdeu vaidade, mal arrumado, não cuida dos dentes, não procura médico, não me procura para fazermos sexo. Ele só trabalha e nas horas livres, joga vídeo game ou bebe com os amigos. Não gosta de conversar, parece um estranho em casa... Eu me sinto humilhada! Não aceita críticas. Eu tento ajudá-lo a fazer dieta, mas ele me ignora, quanto mais eu falo, mas ele não quer.
Já ameacei me separar, ele diz que não quer, que me ama muito, mas não existe companheirismo, diálogo, sexo, o fato de ele estar engordando muito, tem esfriado o meu desejo. No início éramos muito ativos, mas depois tudo esfriou.
Não quero ir embora, o trai-lho. Não sei quanto vou aguentar.
Ajude-me!!!
Marília"

ERA UM PROJETO RAZOÁVEL, SIMÉTRICO E GENEROSO. 
Ele cuidava das economias, ela organizava a casa, cozinha, limpeza. O carro, tarefa de homem, ela, as roupas... Uma distribuição correta, convencional. Outro detalhe, ela cuidaria do seu corpo para manter a atração e desejo mútuos... Ele, sendo homem e menos ligado estas questões, respeitaria as premissas básicas de cuidado e elegância...

Até que um imprevisto quebrou o delicado equilíbrio. Foi a sonhada ascensão profissional do Bernardo, maiores responsabilidades, mais dinheiro, ideal para um sujeito ambicioso. Foi uma ascensão que marcou o começo da derrocada. Bernardo engordou e descuidou a Marília, que perdeu espaço na cama do casal, migrando para a ingrata tarefa de reprimir a alimentação, lembrar as regras de saúde, higiene, dentista ou clínico. Marília se transformou na mãe de um adolescente viciado em videogame, retraído e indiferente, que, realizado financeiramente, se exime do resto das suas obrigações.

- “O corpo é meu.”, reclama Bernardo. “Com ele faço o que eu quiser e ninguém tem nada com isso...”.

Bem, finalmente chegamos ao centro da questão. Não é verdade. Marília tem tudo a ver com isso. Pessoas casadas não são proprietários exclusivos dos seus corpos que, de alguma forma, são um bem comum. Estabelecer uma relação é um projeto que aliena parte da individualidade, a doença de um é problema de dois, quando ela engravida, ambos respondem pela nova vida.

Numa boa relação o corpo de um interessa ao outro, como co-proprietário e por isso precisa de cuidados, tantos quanto os filhos, a casa ou o carro... Sei perfeitamente que desde a abolição da escravatura os corpos são próprios, porém “meu” marido ou “minha” mulher denunciam a propriedade conjunta. O sexo, inclusive, é exclusivo do casal, e quem o utilizar fora arrisca ou acaba com a relação. 

O declínio físico do Bernardo poderia ser consequência de uma depressão, um pedido de ajuda, porém Marília não é sua terapeuta, é apenas sua mulher, que faz o possível para ajudá-lo, seu esforço acabará sendo inútil sem alguma colaboração do próprio Bernardo.

O fato real e concreto é que perderam um bom casamento para inaugurar uma família disfuncional de uma mãe chata e um filho rebelde. As ameaças da Marília de abandonar ou trair denunciam seu sentimento de que já foi abandonada e traída. Precisam desistir desse modelo para recuperar uma vida melhor.

Não tenho bons conselhos para o Bernardo, que sabe que precisa se recuperar para recuperar a Marília e, se for possível, consultar um profissional para decifrar os motivos da sua regressão. Talvez alguma atitude do seu pai o tenha feito pensar que fundamental na vida é ganhar dinheiro. Errado, não existem bons motivos para perder o amor próprio, porque, quando perdido, bloqueia o amor alheio.

Marília, de sua parte, precisa entender que seus conselhos perderam efeito, certamente seu silêncio será mais eficaz do que suas palavras. Os adultos conquistam com seus méritos, os adolescentes exigem amor com suas más-criações. O melhor é não responder a elas, com o tempo os mais inteligentes desistem e se corrigem.
Revista de domingo de O GLOBO, 08 de janeiro de 2012 

AMY WINEHOUSE - concerto ao vivo HD - Glastonbury Festival 2008



24 de mai de 2016

MARTHA MEDEIROS -- A IMPONTUALIDADE DO AMOR


Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.


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22 de mai de 2016

MENTE HUMANA - Pesquisa Relaciona Ansiedade e Inteligência

Pessoas nervosas são mais inteligentes que as demais. A afirmação é polêmica e foi feita por cientistas do Suny Downstate Medical Center, em Nova York. Depois de examinar o QI de portadores de distúrbios da ansiedade, como síndrome do pânico, transtorno pós-traumático e medo de lugares fechados, a equipe do psiquiatra Jeremy Coplan concluiu que esses indivíduos têm um coeficiente de inteligência maior comparando-se ao restante da população. De acordo com os cientistas que participaram do estudo, nos humanos, inteligência e preocupação evoluíram juntas.

Além de testar o QI de 16 pessoas extremamente ansiosas, os pesquisadores realizaram o exame de imagem, que revela as conexões dos neurônios. Eles descobriram que os preocupados têm menor concentração de colina, um nutriente regulador do metabolismo presente na massa branca do cérebro. “A preocupação nos deixa mais alertas, algo que garante a sobrevivência. No processo evolutivo, a ansiedade, portanto, pode ter sido um benefício”, diz Coplan. “No cérebro dos indivíduos ansiosos que investigamos, além do QI mais alto constatamos que o metabolismo funciona de maneira diferente. Essas duas características — ansiedade e inteligência —, portanto, estão relacionadas”, diz.

O pesquisador, cujo estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, usa o exemplo dos judeus ashkenazi, conhecidos por ter uma inteligência bem acima da média da população. Oriundo da Europa, esse grupo étnico, ao qual pertencia Albert Einstein, sofreu perseguições intensas no último milênio, incluindo a inquisição espanhola e o Holocausto comandado por Adolf Hitler. “É um povo que, obviamente, passou por períodos sucessivos de ansiedade, onde a vida deles era constantemente colocada em risco. Essas pessoas têm uma mutação genética que resulta em uma doença devastadora, chamada de síndrome de Tay-Sachs. A mesma variante também pode estar ligada, segundo pesquisas recentes, a uma atividade neural mais intensa, o que leva ao aumento da inteligência”, afirma.

Crítica Especialista em distúrbios da ansiedade, a psicóloga Linda J. Metzger, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, tem sérias dúvidas sobre a conclusão do estudo de Coplan. “É certo que o medo foi importante na evolução da humanidade. Ainda hoje, sabemos que uma dose de preocupação é essencial para que as pessoas não se arrisquem demais. Daí a correlacionar a ansiedade extrema à inteligência, creio que são necessários estudos mais amplos”, diz. Ela lembra que o excesso de medo é um problema grave, com sérias consequências sociais e até econômicas. “As fobias fazem com que muitas pessoas percam sua vida produtiva e o tratamento desse problema requer gastos no sistema de saúde”, diz.

Coplan concorda que a ansiedade aguda é algo preocupante, mas defende seu estudo. “Preocupar-se pouco pode ser problemático também, tanto para os indivíduos quanto para a sociedade. Algumas pessoas são incapazes de reconhecer o perigo, mesmo quando ele é iminente, e creio que isso chega a ser algo pouco inteligente. Se pessoas assim assumem uma posição de liderança, elas acabam influenciando a população em geral, no sentido de acharmos que nunca há motivo para nos preocupar. Em algumas situações, como o estouro da bolha estatal que vivenciamos nos Estados Unidos, a falta de preocupação da sociedade teve consequências sérias”, argumenta.
Paloma Oliveto‏

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