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ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - Brasilienses

Por Cult Carioca · maio 08, 2012
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - Brasilienses

"É como se a moçada do Plano Piloto, gente de ‘mente aberta’ e acesso a uma boa universidade, dissesse aos emergentes da Uniban: ‘Viram? Nós podemos. Vocês não’". Não se trata de um recorde apenas brasileiro. No mundo todo, nunca antes o público ganhara igual oportunidade de contemplar a arte da corrupção em tal esplendor. Entre os itens da rica coleção de filmes estrelada pelo governador Arruda e sua turma, cada um terá suas próprias prefe-rências.

A deste colunista é a seguinte: Medalha de bronze, empatados: 1) Aquele em que o governador, escarrapachado no sofá, é despertado da sonolência pela mão amiga que lhe estende os maços de dinheiro. "Ah, ótimo", ele diz. Justificativa do prêmio: a naturalidade com que o governador saúda a oferta, embalada por um "ah, ótimo" tão protocolar como o que saudasse a chegada do cafezinho. 2) Aquele em que a deputada entra na sala, recebe o dinheiro, abre a bolsa, guarda o dinheiro e se vai.

Justificativa: a simplicidade do ato. Medalha de prata: o filme da oração, em que três dos propineiros se abraçam e agradecem ao Senhor a graça concedida. Justificativa: a força da fé, mesmo em circunstância em que o comum das pessoas não esperaria sua presença. Medalha de ouro: o filme em que o presidente da Assembleia de Brasília, sentado diante do distribuidor da propina, recebe os maços e os vai alocando, primeiro, nos diferentes bolsos do paletó, depois nas meias.

Justificativa: a didática exposição do caráter clandestino da propina, mas não apenas isso. O filme leva a palma também por seus valores estéticos. O personagem está bem vestido, exibe uma silhueta esguia, e os movimentos que executa, primeiro com os braços, conduzindo as mãos aos bolsos, em seguida com as pernas, levantando uma, depois a outra, para alcançar as meias, mostram flexibilidade e boa coordenação. É o estilo a serviço da corrupção. Ainda falta acrescentar um detalhe, uma nota de rodapé, ao episódio em que a moça de minissaia foi escorraçada pelas hordas de trogloditas da universidade Uniban, em São Paulo.

O detalhe, que talvez não seja tão detalhe assim, foi a manifestação encenada na Universidade de Brasília por algumas dezenas de estudantes, homens e mulheres, alguns em roupas íntimas, outros sem roupa alguma, em protesto contra o ocorrido. Duas moças de peitos de fora escreveram na pele: "O corpo é meu". Um grupo de meninas entoava: "Eu uso o que quiser / eu sou mulher". Não foi noticiado se, como usam, ou não usam, o que bem entendem, os estudantes costumam assistir às aulas pelados.

Presume-se que não. Mas naquele dia puderam, sim, exibir-se pelados no câmpus. Em si o fato não seria tão relevante se não revelasse… falar nisso é chato, é quase proibido, mas vá lá… se não revelasse uma questão de classe. É como se a juventude dourada do Plano Piloto, abençoada, entre outras coisas, com o acesso a uma boa universidade e a um meio de hábitos livres e "mente aberta", dissesse aos emergentes da Uniban, condenados a uma universidade ruim e a um meio de hábitos não tão livres e men-tes não tão abertas: "Viram, seus basbaques?

Nós podemos. Vocês não". Acrescente-se que a moçada do Plano Piloto cursa uma universidade gratuita, enquanto a Uniban cobra caro de sua clientela classe C, e tem-se um retrato que, para além dos costumes, flagra a perversidade do sistema brasileiro de ensino superior em seu coração. O Ministério das Cidades lançou uma campanha em que ensina aos pedestres que só devem atravessar a rua na faixa – e depois de esperar que os carros parem. Que é isso, Ministério das Cidades?!

O alvo está invertido. É o motorista que tem de ser instruído a parar, assim que avista um pedestre na faixa. Essa é a questão central. Esclareça-se desde logo que o que está em pauta é a faixa de pedestres sem semáforo. Com semáforo as coisas se simplificam: o sinal fecha, os carros param. Nesses locais nem precisaria haver faixa zebrada. Bastaria uma linha sinalizando o ponto em que os carros devem parar. O que os motoristas brasileiros nã

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