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ATÉ DEPOIS DA VIDA - Edmir Saint-Clair

 

Eram jovens em seus últimos momentos da adolescência, quando se viram pela primeira vez. No pôr do sol, no Arpoador, num verão.

Enquanto todos contemplavam aquele show de luz e sombras enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelos dois irmãos.

Ele estava alheio a tudo aquilo desde que chegara, ela também. Ela estava fitando-o de forma acintosa desde que chegara, involuntariamente, e ele também. Menos de 10 metros de distância, mais as dezenas de pessoas, os separavam.

Apenas olhavam-se fixamente, a distância não impedia que fosse evidente que as pupilas de ambos haviam se conectado além de tudo e todos. Além deles mesmos.

Não sorriram, não piscaram, não fizeram menção alguma de se aproximarem, estavam imóveis e absurdamente focados. Em transe. Profundo.

Enquanto ouve luz suficiente para o olhar humano distinguir traços no escuro, ficaram onde estavam, imóveis.

Saíram junto com a multidão, sem que se encontrassem.

Passou-se 40 anos.

De novo um Pôr do sol, de novo no Arpoador, de novo num verão.

Depois de toda uma vida, eles estavam no mesmo lugar, a mesma distância e num momento tão sublime quanto aquele que jamais esqueceram. Se reconheceram, novamente, pelo olhar.

Novamente, permaneceram no mesmo transe de antes, enquanto a natureza dava seu espetáculo de todos os verões, dos mais lindos verões. Dos inesquecíveis verões.

Permaneceram exatamente como há 40 anos. As pupilas engolidas pelas outras pupilas, à distância. Saciando a fome da alma.

Não se aproximaram. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão suave, profunda e intensa com as duras mãos da realidade. Sabiam que estavam sentindo exatamente a mesma coisa. O mesmo sentimento habitava os dois corpos ao mesmo tempo. O Inexplicável, o etério e o sublime se encontraram.

Eles sabiam, e levaram um ao outro consigo para sempre, até depois da vida.

Edmir St-Clair

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PATÉTICO - Edmir Saint-Clair

 

O médico fora direto e objetivo. A cirurgia ocorrera sem intercorrências e as expectativas eram boas. Mas, as próximas 24 horas seriam críticas. A bala transpassou o crânio e, apesar de ter feito um trajeto quase milagroso, atingindo superficialmente uma região menos nobre do cérebro, As consequências de um tiro na cabeça são sempre imprevisíveis.

Dona Jandira estava aflita e seu sofrimento era intenso e visível. Em suas mãos, a bíblia, constantemente manuseada, era apertada incessantemente com todo fervor que ela possuía, que era infinito.

Jorge, o filho no CTI, era o último membro vivo de sua família. Perdera o marido, uma filha e um irmão da mesma maneira, voltando do trabalho para casa. Todos por balas atiradas por ninguém.

Dessa vez seria diferente. Desde que se converteram, haviam encontrado o mais próximo de acolhimento e amparo que, quem perdera toda a família no intervalo de um ano, necessitava tão visceralmente.

Jorge e Dona Jandira eram assíduos frequentadores dos cultos e jamais atrasavam seus dízimos. Naquele momento, rezando na capela do Hospital Público, esse pensamento confortou-a profundamente e lhe veio a certeza de que tudo daria certo.

Jorge estava indo encontrá-la no templo quando uma troca de tiros o pegara em fogo cruzado.

Mas, Dona Jandira estava confiante, o pastor lhe garantira que hoje dedicaria a sessão de cura das 20 horas especialmente ao seu filho querido por todos.

Às 20 horas, Dona Jandira ajoelhou-se na pequena capela do hospital e começou a orar, sentindo uma grande energia percorrer todo seu corpo. Teve vontade de chorar de emoção. Teve absoluta certeza de que a intensidade das orações do pastor na sessão de cura, a quilômetros de distância, chegara com toda a força até ela e seu filho. Jorge estava salvo.

Nesse momento, o médico entra na capela, dirige-se até ela e, sem tomar fôlego, lhe comunica que “infelizmente, o quadro do filho evoluíra a óbito. E, que ele sentia muito”.

Quando soube, o Pastor lamentou a perda de mais um fiel que nunca atrasava o dízimo.

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MEUS CABELOS GRANDES - Edmir Saint-Clair

 

No início dos anos 1970, os cariocas começaram a deixar seus cabelos crescerem muito mais do jamais antes. Os astros do rock inglês do Led Zeppelin, Pink Floyd, Genesis, Yes e cia tinham, todos, os cabelos maiores do que os das nossas namoradas. Logo, meus amigos estavam ostentando cabeleiras bem abaixo dos ombros. 

E, eu, adivinhem? Estava estudando no Colégio Militar do Rio de Janeiro por livre e espontânea vontade de brincar de soldadinho. Se arrependimento matasse...

Corte militar, máquina 1, toda semana.

 Eu e minha família tínhamos passado um ano fora morando em Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Naqueles anos, os jornais do Rio e SP chegavam com dois dias de atraso, e não havia sinal de televisão na cidade. Muito diferente do mundo que havíamos deixado no Leblon. Era como estar em outro país, numa cultura completamente diferente.

Quando viajei, os cabelos de todos eram iguais, mais ou menos do mesmo tamanho. Quanto menor mais prático e mais gostávamos.

Quando voltei, meus amigos tinham cabelos longos e usavam roupas completamente diferentes das minhas e do meu cabelo.

Voltei já matriculado e há 4 dias do início das aulas, no Colégio Militar. Sem tempo para desistir.

Me lembro que fiquei assustado quando percebi como tudo tinha mudado tanto. Viajei no meio do ano anterior, aos 11 anos, e voltei precisamente 1 ano depois. O suficiente para o mundo inteiro mudar.

As roupas, as novas gírias e trejeitos foram assimilados facilmente, com a volta da convivência. Mas, os meus cabelos...quanta diferença.  Me sentia um estranho no próprio ninho.

Depois de dois anos e meio cortando o cabelo, semanalmente, no modelo recruta, saí do Colégio Militar. Os meus amigos do bairro, e de infância, não cortavam os seus há anos.

Me senti livre como o astro de Hair e  cheguei a ter o cabelo mais compridos entre os da minha turma.

Mas, no começo, ainda demorou vários meses, até que meu cabelo crescesse o suficiente e eu me sentisse seguro para frequentar o píer e as dunas da Gal. 

Edmir St-Clair


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A RESPOSTA - Lêdo Ivo



 Seu nome era Serafim Costa. Mas nome de quem, ou de que? Na cidade pequena, decerto a sua figura deveria ter se cruzado, muitas vezes, com a do menino fardado, de camisa branca e curtas calças azuis extraídas das velhas casimiras paternas. Ele, o comerciante abastado, talvez comendador, não conhecia o garoto. E este jamais poderia ligar o nome à pessoa. Assim, Serafim Costa era apenas um nome - a belissima sonoridade de um estilhaço de mitologia, uma flor aérea que, em vez de pétalas, possuia sílabas. 

Ele morava no Farol, exatamente onde o bonde fazia a última curva. Os muros brancos, que cercavam o quarteirão, semi-escondiam a casa, também branca, além do jardim que aparecia entre as grades, e em cujos canteiros florejavam espessuras e certas musguentas flores amarelas, e um imenso besouro zoava.

A casa era um palacete de dois andares, crivado de sacadas e cegas janelas, e que parecia desabitada. Possivelmente essa incorrigível falsária, a Memória, a pintou, sem tir-te nem guar-te, com a sua branca tinta adúltera, substituindo a verdade nativa, feita de alvorentes azulejos pintalgados de azul, por alguma caprichosa arquitetura rococó. De qualquer modo, de outro lado do muro reto, sem dúvida encimado por afiados cacos de garrafas para impedir o salto dos ladrões, a gente via as copas das mangueiras, cajueiros, palmeiras e outras árvores sob as quais alguns cães esperavam, impacientes, que a rotina bocejante do dia se esfarelasse para que eles pudessem latir, na noite raiada de estrelas, como que lembrando a Serafim Costa — que interromperia por meio minuto o seu sono tranqüilo e patriarcal — as suas presenças vigilantes.


— Aqui mora Serafim Costa devia ter-me dito meu pai, num daqueles crepúsculos em que, de bonde, voltávamos para casa; ele com a sua velha pasta que inexplicavelmente não o acompanhou ao túmulo (o que talvez não o fizesse ser de pronto reconhecido no Paraíso), e nós ainda guardando nos ouvidos o bulício vesperal do instante em que, aberta a porta do grupo escolar, as crianças escoavam para a praça e se perdiam nas escurentas ruas tortuosas.

O palacete branco vulgava riqueza, luxo, secreto esplendor. Além das portas fechadas, das presumíveis estatuetas de mármore, do aroma das dálias, do fino palor dos azulejos, das mudas venezianas, havia decerto um universo de opulência, que a nossa fantasia de meninos pobres mal podia imaginar. A tarde transcurecia; o portão fechado validava-se como o brasão de uma existência que, terminados os diálogos inevitáveis de seu ofício de grande comerciante sempre atarefado e vigilante, suspendia qualquer tráfico com as mesquinharias diurnas, igual a um navio que, após todo o baixo ritual da estiva, readquire a sua dignidade perdida sulcando o mar sem amarras.

Era o palácio de Serafim Costa. E o nome, a magia desse nome que ocupou toda a minha infância, e era o preâmbulo mágico das encantações, demorava-se em mim, .solfejando-se no ar eternamente perfumado pelo Oceano. Meu pai, então guarda-livros de um armazém de tecidos, conhecia Serafim Costa, e nos mostrava a sua residência. "Aqui mora Serafim Costa." Não nos nomeava uma forma definida de casa (sobrado, bangalô, palacete); e certo aquela moradia, uma das mais luxuosas da pequena cidade, refugia às denominações irreversíveis. Ignoro se Serafim Costa era alagoano ou um dos muitos imigrantes portugueses que, estabelecidos em Maceió, enriqueceram em tecidos ou em secos e molhados e terminaram comendadores — mas em seu palacete, na exuberância do jardim equatorial, no chão assombrado de árvores enlanguescidas pelo mormaço, havia algo que era a fusão improfundável dos mais faustosos elementos nativos com uma substância remota e avoengueira, como que a reprodução de antiga planta deixada do outro lado do mar e tacitamente reconstruída pela poupança e ambição do imigrante afortunado. Por isso, meu pai dizia aqui, querendo assim significar tudo o que era o império de Serafim Costa: as grades do jardim, os sinuosos canteiros colmeados de folhas e flores, os calangros e insetos, a água espatifada de uma fonte, os familiares que não apareciam às janelas, talvez para não confundir a visão de todos os que, como eu, o imaginavam reinando solitário em sua mansão, sem quinhoar ostensivamente com ninguém o resultado, de sua vida vitoriosa, feita de zelo e siso.


Embora eu não tivesse conhecido Serafim Costa, tornou-se-me familiar aos olhos um dos empregados de seu armazém. Era um velho corcunda, de fiapos brancos na cabeça calva, e devoto. Alguns anos depois, quando já tínhamos deixado de morar no sítio e passáramos a habitar numa rua do centro da cidade, estávamos todos, no sótão, assistindo à passagem de uma procissão que enchia a monotonia da tarde de domingo. Súbito, identifiquei na multidão o corcunda velho e devoto, e exclamei:
— Olhe o Serafim Costa!
A exclamação fez espécie a meu pai, que se virou para mim, surpreendido com a notícia. Seu ar era mais do que de dúvida — decerto eu dissera uma heresia, que reclamava pronta corrigenda ou a aura de uma prova irretocável. Com o dedo, apontei o velho corcunda que, de casimira preta na tarde de sol fugidiço, vencia, na aglomeração, os. paralelepípedos da rua. Meu pai reconheceu o empregado de Serafim Costa e exclamou, de bom rosto:
— Não é o Serafim Costa — e achou engraçado que eu confundisse o empregado humilde e devoto com o poderoso e mitológico patrão.
E assim ele ficou sendo, para mim, sempre e eternamente, um nome, inatingível figura do ar. Muitas vezes, passeando sozinho pelo sítio ou junto ao mar lampejante, eu repetia esse nome, despetalava-o na brisa como se ele fosse um malmequer, juntava de novo as pétalas das sílabas que cantavam mesmo momentaneamente esquartejadas. Serafim Costa! dizia eu bem alto para que os costados dos navios pudessem devolver-me, em forma de eco, essa primeira lição de poesia, essa infindável soletração do absoluto.

Muitos anos depois, desintegrada a infância, e já envolto numa névoa de estrangeiro, voltei à curva do bonde. Era ali que morava Serafim Costa — o portão fechado era sinal de que ele estava lá dentro, movendo-se possivelmente entre frutas maduras, gatos sonolentos e bojudas porcelanas azuis. Trinta anos se tinham passado desde os dias em que o bonde, na volta da escola, nos fazia ver a misteriosa morada, o universo branco e verde estriado de agudas grades negras e manchas róseas. O invisível Serafim Costa já deveria estar morando, e de há muito, em outra alvacenta morada... Mas parei diante do portão cerrado, espiei o jardim silencioso, os vasos de azulejos, as escadarias de mármore, as altas janelas que pareciam sotéias. E chamei: Serafim Costa!
Chamei a quem, a que? E ocorreu o milagre. O nome ficou suspenso no jardim onde se ocultava uma cobra papa-ovo, depois voou pelos ares, como um pássaro; chocou-se contra os costados dos cargueiros que, no destempo hirto, desembarcavam em Maceió os caixotes das mercadorias encomendadas, do outro lado do Oceano, pelo valimento comercial de Serafim Costa; e, metamorfoseado em eco, voltou de novo aos meus ouvidos, já agora na soberba hierarquia de um nome que não precisa mais de figura ou de anedota; e se tornou para sempre algo sonoro e puro, deslumbrante e enxuto.

E, assim, obtive a resposta.
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PERDOANDO DEUS - Clarice Lispector


Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho.

O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo.

Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante.

Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto.

Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.

É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.

É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta.

Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala.

Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?

Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.
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O ATO FINAL - Christina Thedim

           

    Uma pequena homenagem a um grande e belo filme, que nada tem a ver com essa estória.

             Num lance comum, corriqueiro, pegou o plástico onde ficava guardado o fumo. Ao abri-lo, constatou a incômoda presença de algumas formigas que, talvez, à procura de alimentação, acabaram presas no pacote.

             Assim que se viram descobertas, a primeira reação foi fugir, imediatamente, mas _ e isto pode ser observado sem a menor sombra de dúvida _ não de maneira desatinada, catártica, como de costume. Pareciam em perfeita sintonia com a sua mente, seu pensamento: chegar o plástico mais perto do livro, para que saíssem tranqüilas, encontrando um chão sob seus diminutos pezinhos.

             Não era esse um cuidado habitual. Na realidade, não suportava mais a exagerada convivência que lhes impunham, invadindo e fazendo moradia nos seus vasos de plantas, sugando-lhes a matéria orgânica de que necessitavam para manter o viço. No reino animal, em geral, os insetos não contavam com a sua simpatia. Sempre os detestou, tratando-os com desmedida e pavorosa crueldade.

             Tinha como certo que o analisavam naquele instante; com seus minúsculos olhinhos a vigiar-lhe, firmes, na expectativa de liberdade.

             Tão logo aproximou a borda da página do I Ching que se referia ao Ch’ien  _ o Criativo _ num movimento único, coordenado, como se obedecessem a um comando tácito, saíram de forma rápida e aparentemente inteligente, deixando-lhe a impressão de uma atitude tomada com total consciência. Perigosa palavra essa em se tratando de formigas, mas a mais exata para a situação. Não, não era conseqüência do fumo. Acabara de se levantar, e não havia ainda tomado seu café. Apenas tinha aberto o pacote para verificar o efeito do sereno na erva, coisa que, todo adepto sabe, faz melhorar em muito a sua consistência. Portanto, não tinha fumado nada, nem um baseadinho sequer. Jamais fumava antes do desjejum.

            O dia amanhecera cinzento, cheirando a chuva, e a temperatura era amena; um dia diferente dos sempre tão ensolarados e tórridos dias tropicais. Mas, nem por isso menos convidativo a entregar-se aos caprichos da dada vida.

            Tomou o ônibus carregado de gente e desceu para o centro, onde faria umas compras. Apesar do aperto, aqueles rostos _ máscaras rígidas, sem nenhuma esperança _ sobrepostos aos ombros encabidados, se faziam notar, com seus tóraxes aniquilados e suas expressões de ausência e cansaço. Transmitiam uma desagradável sensação de automatismo e morte. Lembrou-se, sem saber por que, das formigas. Organizadas, pareciam saber o que queriam.

            O fumo havia ficado no mesmo lugar de sempre, só que, desta vez, deixara o plástico bem vedado, usando e abusando da sua auto-aderência. Um amigo, que havia chegado de Cabrobó, em Pernambuco, capital clássica da cannabis sativa, fizera-lhe esse carinho. Nenhum açúcar, nem mel, nada desses recursos apelativos que colocam no bagulho, com o descarado e inatingível objetivo de melhorar o aspecto, sempre caído, das “coisas” do asfalto. O único atrativo que sobrara para as intrusas era o famoso THC, componente que, através da inibição da glicose no sangue, provoca o tão desejado “barato”. O cérebro, estimulado pelas ondas alfa, trabalha mais o seu lado direito, normalmente esquecido pelo ritmo de vida moderno e materialista. Concentram-se nesse hemisfério, especificamente, as manifestações arquetípicas, simbólicas de uma parte de nossa personalidade, que levam a estágios e valores de consciência tão reais e importantes como os que privilegiadamente comandam nossas mundanas expectativas. Tinha que saltar no próximo ponto. Não fosse a brusca freada, que o despertara de seus pensamentos, e o teria passado. O difícil mesmo era conseguir chegar lá na frente a tempo, tal a quantidade de corpos que deveria atravessar. Mas cumpriu submisso o seu destino e, finalmente, desceu onde queria.

           O sol já ensaiava sua despedida por detrás dos montes, mesmo que grossas nuvens impedissem, sem perdão, o suave prazer de seus raios dourados e mágicos. De fato, isso não tinha nenhuma importância, pois estava deverasmente satisfeito. Havia conseguido todas as tintas e papéis que necessitava para a produção de novas aquarelas, e isso era o que importava. Não dependia delas para sobreviver, se bem que até poderia, se assim o quisesse. Havia uma certa tendência a originalidade nos seus trabalhos, pelo menos, fora essa a opinião dos críticos na sua última exposição. Mas optara pelos computadores, sinônimos de modernidade e segurança no trabalho e no bolso.

           Os gritos nervosos das crianças na praça, sob os olhares cuidadosos das mães e babás, soavam como música aos seus ouvidos. Cruzara por algumas, antes de chegar à portaria do antigo prédio onde morava. Pode perceber que o observavam com uma expressão de interesse e curiosidade. Conseguiu sentir-se, por eternas frações de tempo, esperançoso e feliz. Enquanto o elevador subia lentamente, sem pressa alguma de atingir seu mecânico objetivo, uma estranha e incômoda sensação invadia-lhe todos os corpos, contrariando qualquer possibilidade de lógica.

           A impressão de que alguém, lá dentro, o aguardava, aumentou consideravelmente, acelerando de maneira arrítmica as batidas do seu coração, assim que parou frente à porta de entrada do apartamento. Chegou a ficar, por um longo espaço curto de tempo, apenas a escutar, tentando colocar um sentido qualquer em tudo aquilo. Após um minucioso exercício de perceptividade, resolveu entrar. Achava-se meio injuriado por tais obtusos sentimentos. Chegar em casa sempre fora um ato de satisfação, pois era possuído por uma aconchegante segurança, que o fazia esquecer da imensa agressividade do mundo lá fora. O problema, com toda certeza, era dele. Paranóia... Já ouvira muito sobre isso. Mas por quê? Porque se, aparentemente, tudo estava na mais perfeita ordem?! O fato de ser um solitário nunca lhe havia causado desconforto, simplesmente por ser uma opção. A grana entrava na medida certa, suprindo, sem erro, às suas necessidades. É verdade que, algumas vezes, ficava meio de saco cheio de tudo acontecer sempre tão dentro das expectativas. Mas não considerava isso um problema, pois logo se diluía, sem maiores danos. Chegou a pensar numa síndrome de mediocridade, o que não era, propriamente, exclusividade sua. Afinal, uma apatia generalizada tomava conta das relações humanas neste final de século e início de novo milênio.

          Tudo corria dentro da mais absoluta normalidade, mas a angustiante sensação insistia em permanecer, tirando-lhe toda a paz.

           Olhou para o chão da sala onde se encontravam, displicentemente dispostos, os seus mais recentes indícios de vida no plano da matéria. Livros, _ um não, mas dois copos: um já vazio, ainda cheirando a vinho, e outro de água, pela metade. O I Ching permanecia aberto na mesma página, onde, chegando a vista mais perto do papel, podia-         

se ler com clareza: “As nuvens passam, a chuva atua, e todos os seres individuais fluem para suas formas próprias”. Esse atributo do Criativo _ Yuan, a cabeça _ o mais importante, determina que, para o homem santo, ou sábio, as etapas do crescimento devem ocorrer de maneira clara e harmoniosa. O caminho do Criativo atua através da mutação e da transformação, de modo que cada coisa recebe sua natureza e destino verdadeiros”

             Terminado o jantar, e tendo lavado todas as louças e panelas, como de hábito, achou de dar uns “tapinhas”. Assim que pegou o plástico, uma voz soou bem nítida aos seus ouvidos: “Nós não vamos sair agora”.

             Soltou o paco no tapete amarelo e ficou a observá-lo com obstinada atenção.

             Nada, nenhum movimento. Resolveu abri-lo e acabar de uma vez por todas com aquela paranóia.

             _ Você não devia ter feito isso; agora, teremos que matá-lo.

             Estavam todas lá, e nem tentavam disfarçar a terrível hostilidade nos olhares furiosos. Pensamentos de ódio, e palavras repletas de indignação eram captadas com total nitidez. Uma delas, a maior _ a chefona, certamente _ respondeu agressivamente à pergunta que crescia no peito e na mente do atônito observador.

             _ Odiamos todas as malditas vezes que nos pisoteia, nos destruindo sem a menor piedade. Todas as vezes que nos esmaga, com seus tapas histéricos e arrogantes, quando, por simples descuido, subimos em teu corpo imundo. Vocês, humanos...

             A comunicação se fazia dentro de um contexto surpreendente.

             _ Jamais pensei que seres, aparentemente tão insignificantes, sentissem a morte com tamanha intensidade! Essa vida monótona e repetida de todos os dias, resumida nesse ir e vir sem fim, atrás de uma migalha, de uma esmola de minhas sobras.

            _ Você é um animal mesquinho porque não usa o que lhe foi ofertado pela ordem das coisas, nem mesmo para obter uma vida mais digna e compensadora. Sua sensibilidade cristã nos comove a tal ponto, que não nos resta outra alternativa.

            Inconcebível, o que sua mente, estarrecida, escutava.

            _ Não adianta ficar se perguntando o por que de tudo isso. Já tomamos a nossa decisão. Pelo menos, temos a consideração de lhe comunicar antes, e não como faz conosco, sentando esse rabo sujo e desajeitado sobre nossas cabeças. Seu fio está por um triz.

           Podia parecer loucura, mas o aspecto geral da situação era, no mínimo, preocupante: um grupo de sete formigas, graúdas, e bem reais, o recebia sob veementes protestos e nada veladas ameaças.

          Tentou disfarçar, distraindo-se com as páginas que passavam, aleatoriamente, ante seus olhos, agora ainda mais negros, refletindo a enorme escuridão em que se encontrava sua alma. Um suor incômodo começou a empapar as folhas de incontável sabedoria. As articulações enrijeciam-se, devido ao extremo nervosismo que lhe dominava as emoções. Fixou sua tensão num parágrafo, que dizia: “Por encarnar o amor, o homem superior é capaz de governar os homens. Por promover a cooperação entre tudo o que é belo, ele é capaz de unir a humanidade através dos costumes. Por favorecer a todos os seres, ele é capaz de conduzi-los a harmonia, através da justiça. Por permanecer perseverante e firme, ele é capaz de levar à cabo todas as suas ações”.

           _ Melhor não tentar disfarçar. Infelizmente, esse seu jeito cínico e dissimulado de agir já nos é bastante familiar.

           Agora era outra que lhe emitia tais pensamentos. A intensidade da raiva era tanta, que chegou a causar-lhe uma náusea incontrolável, seguida de imensa tonteira.

           _ Não adianta. Não haverá clemência. Não passa de um viciado de merda, que acha que merece viver.

           _ E será que poderiam me responder por que deveria morrer?!

           _ Para os idiotas, até o mais imbecil dos fatos tem que ser explicado. É o caso dessa sua vida sem graça, nesse mundo doente, cheio de gente, entupido de carne. Zumbis de carne e osso, andando sem rumo, sem vontade, sem nada. Todos merecem a morte mas, você, foi o nosso escolhido.

           Matá-las. Exterminá-las, simplesmente, era a única saída que lhe vinha à cabeça; a melhor forma de dar um fim a tanta arrogância e pretensão.

           _ Nem pense nisso. Seria fatal. Ainda lhe resta um pouco de tempo. Não prefere entregar-se a pensamentos mais úteis? Se é que se pode assim dizer.

           E se riram todas, num escárnio voluntário e chocante. Profundamente chocante.

           _ Que tal meditar um pouco sobre as oportunidades que desperdiçou de tornar-se gente por não ter a coragem nem a hombridade necessárias para tanto? Pense seu otário, pois agora acabou-se o que nunca dantes fora doce. Estamos lhe fazendo esse derradeiro favor. Somos misericordiosas.

          Pisoteou o pacote com alucinada ferocidade, esmagando todo e qualquer ponto preto que ousasse se movimentar, numa reação de insubordinação ao poder da ordem vigente.

         Tentou acalmar-se. O cansaço e a tensão eram tão grandes que o fizeram cair no sono.

         Passaram-se alguns dias até que o corpo fosse descoberto. Todos mostraram-se muito impressionados ao saber do estado em que fora encontrado: apenas o cérebro, intacto, ornamentado por uma carcaça desengonçada. Parecia obra de um especialista, tão bem executado que fora. Uma hipótese chegou a ser levantada, mas logo rechaçada pelos técnicos legistas, que a deram como totalmente absurda: que havia sido devorado por formigas. O caso virou manchete de jornal, com acentuado destaque nas páginas policiais. A rua saiu do anonimato, porque a televisão esteve lá, entrevistando moradores, para saber o que ninguém nunca soube explicar. E a ele _ o agora morto _ protagonista de tão inusitado episódio, coube servir generosamente a ciência, já que o corpo _ se é que se pode chamar aquilo de corpo _ não foi reclamado por nenhuma alma viva, tornando-se objeto de profundas análises e ponderações.

         Chamou-me a atenção o fato de a polícia não ter feito nenhum alarde quanto a droga.

         À noite, comenta-se na vizinhança, estranhos barulhos podem ser ouvidos, vindos do apartamento, como se gente por lá houvesse.

         Ninguém, até o momento, ousou entrar para ver.

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ENCONTROS - Edmir Saint-Clair

 

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos

 por aqueles que não podiam escutar a música.”. 

F. Nietzsche

            Sexta-feira, saída do metrô, estação Jardim Oceânico, 7h da noite, chovendo. Ele se maldizia pela escolha de ter deixado o carro estacionado e ter pegado o metrô para ir ao centro. Sua reunião não durara nem uma hora e o custo do estacionamento teria compensado a trabalheira das baldeações. Para completar esquecera o guarda-chuva no vagão do trem. Estava aguardando não sabe o quê, para iniciar a corrida de uns 200 metros até o local onde seu carro está estacionado quando um senhor grisalho, de uns 70 anos, segura seu braço embaraçosamente e lhe fala com uma dicção perfeita e expressando-se de forma absolutamente clara e pausada:

— Daqui a exatamente duas semanas, numa mesma sexta-feira, viaje de carro para Nova Friburgo e vá até Muri, ao local da entrada da estrada de terra que leva até o lugar onde você foi mais feliz na sua vida. Você sabe onde fica. Não falte, não haverá outra chance. Esteja lá no horário que você sabe qual será.

O Senhor acabou de falar e desceu para a estação do metrô, passando pela roleta e desaparecendo entre os transeuntes.

Flávio demorou alguns segundos tentando entender o que fora aquilo. Olhou para fora e percebeu que a chuva dera uma arrefecida e resolveu correr para seu carro. Entrou, ajeitou-se e só então começou a perceber o quanto aquele estranho evento o tinha afetado. Sentiu-se muito estranho. Não havia dúvidas sobre nada do que ocorrera. Para organizar os pensamentos, resolveu refazer passo a passo os momentos desde que descera do trem e chegara à marquise na saída da estação. Lembrou-se que aquele Senhor não estava dentro da estação quando o abordou, estava vindo de fora na direção de quem vai entrar no local.

Fato número dois; ele jamais vira aquele homem na vida. O homem também não falou o nome dele. Teria aquele Senhor o confundido com alguém?

O problema é o quê aquele estranho falou.

O trajeto até em casa, no Recreio dos Bandeirantes, foi feito pela praia da barra, reserva até chegar em casa.

Quando mais pensava no que aquele velho tinha falado mais fazia sentido. Pensou que logo aquele evento surreal sairia de sua cabeça e assunto encerrado.

Nos dias seguintes aquele encontro não sai de seus pensamentos e a cada dia ele ia se lembrando de um evento específico que remontava aqueles lugares em volta de Friburgo. Até que se lembrou que o velho havia falado especificamente de Muri...

Gelou, porque não fizera logo a ligação, a palavra Muri dava significado a tudo que aquele senhor falara.

         Negou-se o quanto conseguiu a fechar aqueles elos que se encaixavam perfeitamente. Mas, não havia a menor chance de alguém além dele próprio saber sobre aquilo. Não que fosse segredo, era apenas algo muito pessoal que ele nunca revelara a ninguém.

Aos 60 anos, não se tem dúvidas de quando se foi feliz. Ele não tinha, haviam sido muitas as ocasiões, temporadas longas, outras mais curtas, mas a felicidade sempre dava o ar e o enchia com suas graças. Mas, há algum tempo perdera a paixão pela paixão. Preferia o amor pelo amor e, nessa mudança, optara por não aceitar prêmios de consolação e, também, não se prestar a sê-lo.  Por isso, sentia-se muito bem vivendo solteiro.

Os dias seguintes foram de lembranças, todas cada vez mais convergentes e direcionadas pelo que o estranho velho anunciara. 

Jane já não voltava mais diariamente aos seus pensamentos porque não mais saíra a partir do momento em que ele aventou a possibilidade de cumprir aquela estranha missão. Mas, o que ele deveria encontrar naquele lugar? Já o identificara como a entrada da estrada de terra que leva ao local onde ele e Jane tiveram uma casa de campo por uns quatro anos. Segundo o velho, ele deveria ir até lá e ficar esperando o quê? Jane, com certeza, não seria. Ela estava casada e feliz. Há 10 anos ele não tinha notícia alguma dela. E o que adiantaria encontrá-la à meia noite naquele local ermo e deserto? Que coisa mais louca... sem sentido...

Ele se sentia mal toda vez que chegava nessa parte daquele pensamento cada vez mais obsessivo. Quem era aquele velho maluco que o deixara tão perturbado?

A verdade é que não precisaria de nada daquilo para aumentar a confusão mental em que vivera nos últimos anos. As consequências da pandemia da Covid-19 só não foram mais graves e profundas porque ele ainda estava vivo. Mas, não tinha certeza se isso havia sido um bem ou um mal a mais. A vida não o atraía o suficiente para esperar ou desejar qualquer coisa dela.  Entendia perfeitamente como Nietzsche deve ter se sentido após anos mergulhando nas profundezas da alma humana. Entretanto, discordava do alemão, o nada era plenamente suportável após o que experimentara. Na verdade, havia minutos tão suportáveis onde o simples fato de não haver dor física ou mental já lhe gerava prazer. Não é agradável se dar conta de que o nada é o melhor estado em que poderemos nos encontrar. E, o seu nada significava, também, sem ninguém.

Impressiona como um ser humano é capaz de ir reduzindo suas necessidades de sobrevivência a ponto de precisar de muito pouco e de ninguém mais. Mas, esse esvaziamento externo cria um correspondente vazio interno. As coisas vão perdendo o valor, a importância e o sentido. Pouco a pouco não fazem mais falta. As profundezas humanas são traiçoeiras e solitárias, quem as frequenta com assiduidade perde o contato com o mundo que vive na superfície.

Não tinha mais dúvida alguma de que iria subir a serra até o local onde aquele senhor lhe disse que deveria estar.

A NOITE

Saiu do elevador direto na garagem, escura e úmida como sempre. Cheiro de garagem, não é ruim, mas também não é bom. É cheiro de garagem. Pareado o smartphone, play na playlist especial para essa viagem que ele não faz há muito tempo.

Nova Friburgo tem um grande valor sentimental para ele. Além das melhores lembranças, sempre teve uma simpatia gratuita por aquela cidade e suas redondezas, Muri, Lumiar e São Pedro da Serra. O céu de inverno e das frias manhãs de sol esbranquiçado é de um azul forte, definitivo. A ele, fala à alma.

Tinha consciência de que se alguém soubesse o verdadeiro motivo da viagem naquele dia e naquela hora, duvidariam de sua sanidade. Ele próprio vinha duvidando seriamente desde que encontrara aquele senhor na saída da estação do metrô há duas semanas. Às vezes, se perguntava se aquele encontro teria realmente acontecido.

Quando entra na ponte Rio-Niterói o trânsito já não sofre reflexo algum do rush das sextas-feiras e corre livre como nas viagens com Jane. O banco do carona é dela, naquele momento ele percebe que nunca deixara de ser.

Não consegue descrever o que está sentindo. Tantos anos passados e a sensação do carro correndo na ponte é improvavelmente agradável... Como pode viver os últimos anos se arrastando na vida... como é bom sentir alguma coisa, como é bom lembrar da Jane. Quase consegue conferir de novo algum sentido a palavra felicidade. Naquele momento pode, ao menos, imaginá-la.

Como é gostoso subir a serra à noite com esse céu completamente iluminado pela lua cheia. É mágico.

Para ele não importava mais o que haveria no fim daquela viagem, o trajeto em si já lhe tirara todo o torpor mórbido que acompanhava seus dias.

Mas, alguma coisa muito estranha ocorrera e ainda estava acontecendo naquela noite. Sente que a cada curva suas energias e pensamentos se excitam progressivamente e de uma maneira inexplicável para quem estivera tão próximo do suicídio. Teve medo para onde aquela estrada o estaria levando. Para onde sua loucura o levaria naquela noite?

A depressão, a infelicidade profunda e a desesperança poderiam ter fabricado aquele velho na estação do metrô? Poderiam. Afinal, o que ele lhe falara não faria sentido para mais ninguém a não ser ele mesmo. O que aumentava a chance de ser produto de sua própria mente. Ele era teimoso e já que chegara até ali, iria até o fim. E, se fosse loucura, pelo menos não haveria ninguém para testemunhar seu surto.

Quando passa, o posto da polícia rodoviária está quase encoberto pela neblina sempre presente naquele horário. Às 2h da manhã o local está completamente deserto.

Pouco depois de uma grande curva à esquerda ele vislumbra a entrada de terra no mesmo lado, pouco antes da entrada para Lumiar. É ali.

Ele para no largo onde a estrada de terra que leva até a Casa Azul começa. Quando desliga o carro sente seu coração acelerar ainda mais. Não tem mais idade para suportar aquele ritmo cardíaco por muito tempo. Salta do carro buscando um pouco mais de ar e para esticar as pernas depois da viagem.

O local está completamente deserto, com era de se esperar, ali não há nada. Volta para o carro e deita o banco, tentando compassar a respiração e controlar aquelas descargas de adrenalina. O suor é tão intenso que encharca sua camisa, suas extremidades estão frias e azuladas. Uma dor aguda percorre todo seu braço esquerdo, a dor no ombro esquerdo aumenta e paralisa seu braço. Faz um esforço e consegue alcançar os dois comprimidos de diazepam que restam na cartela. Toma-os e deita no banco reclinado. Após um pico de dor aguda no ombro, que reflete intensamente no peito, sente um relaxamento profundo e apaga.

De repente, acorda assustado, ainda no mesmo local, e vê um vulto saindo da pequena estrada caminhando em sua direção. É Jane sorrindo.

Nada mais importa.

HISTÓRIA DOS SENTIMENTOS - Lya Luft

Os Sentimentos Humanos certo dia reuniram-se para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes por que a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: "Ah, gente, vamos deixar tudo como está", e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma,a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.

A Mentira disse para a Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estavam fazendo ali.

Depois de contar até 99 a Loucura começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.

A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando a beleza pelo mundo, desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.

Juntos fazem a vida valer a pena - mas isso não é coisa para os medrosos nem os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.
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