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ACESSE - CONTOS, CRÔNICAS, POESIAS E ETC. |
A IMPONTUALIDADE DO AMOR - Martha Medeiros
A PRIMEIRA DE FLÓRIS - Edmir Saint-Clair
A música é a arte que nos permite expressar emoções, contar
histórias e nos conectar uns com os outros sem palavras, de uma forma única e
mágica. A música não existe no mundo físico. Não se pode capturar uma música
com as mãos, não se pode possuí-la, aprisioná-la.
Para aqueles que
compõem, a importância vital é ainda maior. É uma mistura de paixão, desabafo,
desejo, inspiração e criatividade que resulta em algo totalmente etéreo que se
expressa na linguagem da alma, que só as emoções entendem.
Foi assim que aquele momento especial aconteceu a esses três
amigos/músicos que se conheciam e tocavam juntos há décadas. Dois deles
começaram a tocar e, sem palavras, sem olhares, sem nada, começaram a executar
uma música inédita que nascia naquele momento, a cada nota tocada. Uma música com
alma própria, que parecia ter estado esperando a vida toda por esse momento
para nascer.
O terceiro músico, que afinava seu instrumento, teve uma sensibilidade igualmente única e sublime. Ele soube que tinha que ficar em silêncio, soube que precisava apenas observar e sentir. Seu silêncio era o melhor que podia doar para que aquele momento continuasse se realizando. A prova viva de que o silêncio é parte essencial da música. E assim, juntos, eles criaram algo inesquecível.
Essa foi a última música que os três criaram juntos,
sem saberem que seria assim. Uma música que nasceu do nada, de tudo que já
tinham tocado e vivido juntos, de uma mistura de emoções e inspiração que
fluíram livremente pela última vez. Um momento perfeito, coroado com a criação
de uma composição que pareceu ter vindo do além para marcar aquele momento, igualmente
transcendental, para sempre.
PATÉTICO - Edmir Saint-Clair
O médico fora
direto e objetivo. A cirurgia ocorrera sem intercorrências e as expectativas
eram boas. Mas, as próximas 24 horas seriam críticas. A bala transpassou o crânio e,
apesar de ter feito um trajeto quase milagroso, atingindo superficialmente uma
região menos nobre do cérebro, As consequências de um
tiro na cabeça são sempre imprevisíveis.
Dona Jandira
estava aflita e seu sofrimento era intenso e visível. Em suas mãos, a bíblia, constantemente
manuseada, era apertada incessantemente com todo fervor que ela possuía, que era infinito.
Jorge, o filho no
CTI, era o último membro vivo de sua família. Perdera o marido, uma filha e um
irmão da mesma maneira, voltando do trabalho para casa. Todos por balas
atiradas por ninguém.
Dessa vez seria
diferente. Desde que se converteram, haviam encontrado o mais próximo de acolhimento
e amparo que, quem perdera toda a família no intervalo de um ano, necessitava tão
visceralmente.
Jorge e Dona
Jandira eram assíduos frequentadores dos cultos e jamais atrasavam seus
dízimos. Naquele momento, rezando na capela do Hospital Público, esse
pensamento confortou-a profundamente e lhe veio a certeza de que tudo daria
certo.
Jorge estava
indo encontrá-la no templo quando uma troca de tiros o pegara em fogo cruzado.
Mas, Dona
Jandira estava confiante, o pastor lhe garantira que hoje dedicaria a sessão de
cura das 20 horas especialmente ao seu filho querido por todos.
Às 20 horas,
Dona Jandira ajoelhou-se na pequena capela do hospital e começou a orar,
sentindo uma grande energia percorrer todo seu corpo. Teve vontade de chorar de
emoção. Teve absoluta certeza de que a intensidade das orações do pastor na sessão de
cura, a quilômetros de distância, chegara com toda a força até ela e seu filho.
Jorge estava salvo.
Nesse momento, o
médico entra na capela, dirige-se até ela e, sem tomar fôlego, lhe comunica que
“infelizmente, o quadro do filho evoluíra a óbito. E, que ele sentia muito”.
Quando soube, o
Pastor lamentou a perda de mais um fiel que nunca atrasava o dízimo.
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CIMENTO FRESCO - Edmir Saint-Clair
Mais um pôr do sol cinematográfico no Rio de Janeiro. Verão,todas as cores da vida no céu e na terra.
Qualquer horário seria lindo após a confirmação de sua contratação para o novo emprego. Foram longos e difíceis os anos da pandemia sem trabalho. Sobrevivera, a que preço mental e existencial ele não saberia avaliar. Havia sido alto, bastante alto, e consumira forças que ele não sabia possuir.
Mas, naquele fim de tarde o fio da meada estava achado, a partir dali, era só uma questão de tempo para reorganizar a vida o que, nunca, se faz de um pôr do sol para outro.
Caminhando em direção ao supermercado, repara que o posto de gasolina que está sendo construído no trajeto está recebendo o primeiro piso de cimento, apenas numa pequena parte do terreno, exatamente no seu caminho.
Na volta, o caminhão e os operários, que haviam cimentado o piso, já haviam partido e no cordão isolante o aviso: cimento fresco.
Ele não teve dúvidas, pegou a chave no bolso e escreveu seu nome com todo o capricho na massa ainda moldável. Ficou perfeito! Nunca fizera melhor.
Levantou-se e admirou sua obra. Voltou no tempo, quando a vida ainda não tinha passado e tudo ainda estava por acontecer. Se sentia assim naquele momento, escrevendo seu nome numa nova história.
E como estava fantástico o pôr do sol naquela tarde.
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PRESENTE DE NATAL - Edmir Saint-Clair
A
bicicleta, no meio daquela grande vitrine natalina, chamou-lhe a atenção. Era
vermelha e modelo BMX, parecida com a primeira bicicleta que dera ao filho. Há
mais de 30 anos. A lembrança foi automática e dolorida.
Na noite da véspera de Natal, perto do horário de fechar, os shoppings se tornam o maior dos infernos para quem está ali apenas para comprar um sifão da pia, que estourou.
Até a loja de materiais de construção se apropriou do Papai Noel e colocou um
pobre velhinho fantasiado para vender vasos sanitários e Box blindex em 12 vezes,
porque é Natal.
Parou
de tentar gostar de Natal já tem tempo, na verdade, não suporta a data. Gosta
de passá-la como se não houvesse.
De
tudo que já havia perdido, o contato com o filho era o que mais lhe doía. Esse
seria o décimo ano, o décimo natal desde que haviam rompido. Nem uma troca de
palavra sequer durante toda essa eternidade. Tentara a reaproximação de diversas maneiras, durante todos esses últimos anos, mas nunca obtivera resposta alguma.
Quando
saiu, o shopping já estava praticamente fechado, assim como todo o comércio do
bairro. Existe apenas uma noite, no Rio de Janeiro, em que os bares
restaurantes, farmácias e todo o resto do comércio fecha; na noite de natal.
Voltando
para casa, pelo caminho mais longo, foi vendo o tráfego ir se reduzindo, os
pontos de ônibus se esvaziando e pensou que não trocaria o sifão naquela noite.
Queria apenas dormir. Definitivamente, o natal não lhe faz bem.
Ele
sabe, já passou várias dessas meias-noites na rua, por livre vontade. Saía de
casa alguns minutos antes e passava a meia-noite na rua. Apenas para ver sua
própria solidão tomar conta de tudo e imperar soberana. Não tinha mais medo de
encará-la. Ao contrário, tornaram-se bons companheiros.
Parou
na entrada da garagem e, enquanto aguardava que o porteiro lhe abrisse o
portão, ouviu a voz inconfundível:
-
Feliz Natal pai. Vamos passar juntos?
Era
seu filho.
Edmir Saint-Clair
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PEDRO BIAL - Mude
>PELO PRISMA DA ANSIEDADE<
>15 FRASES DE FREUD PARA VOCÊ AMADURECER<
___________________NATAL, A ESTÓRIA DO MENININHO - Rubem Alves
Vocês, que gostam do Harry Potter, fiquem sabendo: a estória do Natal é uma estória do mundo dos mágicos, dos bruxos, das fadas, das varinhas de condão, dos encantamentos. As estórias têm poderes mágicos. Vocês já notaram que, quando a gente ouve uma estória que nos comove, ela entra dentro da gente, faz a gente rir, faz a gente chorar, faz a gente amar, faz a gente ficar com raiva? As estórias dos mundos dos mágicos saltam das páginas dos livros onde estão escritas, entram dentro da gente e se alojam no coração.
Quando isso acontece a estória fica viva, toma conta do nosso corpo e da nossa alma, e nós passamos a ser parte dela. Pois a estória do Natal faz isso com a gente. Quando vai chegando o Natal eu fico com saudade das músicas antigas de Natal (tem de ser das antigas; as modernas não servem) e começo a folhear meus livros de arte, onde estão as pinturas do presépio. É muito simples: um menininho que nasceu em meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos... Era menininho pobre.
Mas diz a estória que quando ele nasceu aconteceu uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente: as árvores se cobriram de vaga-lumes, as estrelas brilharam com um brilho mais forte, e até uns reis deixaram os seus palácios e foram ver o nenezinho. A visão do menininho os transformou: eles largaram suas coroas, jóias e mantos de veludo junto com os bichos, na estrebaria. Quem vê o menininho fica curado de perturbação. Perturbados são os adultos que, ao falar sobre Deus, imaginam um ser muito grande, muito poderoso, muito terrível, ameaçador, sempre a vigiar o que fazemos para castigar.
Pois o Natal diz que isso é mentira. Porque Deus é uma criancinha. Ele está muito mais próximo de vocês do que dos adultos. E foi essa mesma criancinha que, depois de crescida, disse que para estar com Deus bastava voltar a ser criança. Se os adultos, antes de comprar presentes e preparar ceias, se lembrassem da estória, eles ficariam curados da sua doidice. Na noite do Natal que se aproxima, antes de abrir os presentes, antes de começar a comedoria, peça ao seu pai ou à sua mãe: “Por favor, conte a estória do menininho...“ E, se eles não souberem contar, peça que eles leiam esse poema sobre o Menino Jesus escrito por um poeta que queria ser menino, por nome de Alberto Caeiro.
MEUS CABELOS GRANDES - Edmir Saint-Clair
No início dos anos 1970, os cariocas começaram a deixar seus cabelos crescerem muito mais do jamais antes. Os astros do rock inglês do Led Zeppelin, Pink Floyd, Genesis, Yes e cia tinham, todos, os cabelos maiores do que os das nossas namoradas. Logo, meus amigos estavam ostentando cabeleiras bem abaixo dos ombros.
E, eu, adivinhem? Estava estudando no Colégio Militar do Rio de Janeiro
por livre e espontânea vontade de brincar de soldadinho. Se arrependimento matasse...
Corte militar,
máquina 1, toda semana.
Eu e minha família tínhamos passado um ano fora
morando em Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Naqueles anos, os jornais
do Rio e SP chegavam com dois dias de atraso, e não havia sinal de televisão na
cidade. Muito diferente do mundo que havíamos deixado no Leblon. Era como estar
em outro país, numa cultura completamente diferente.
Quando
viajei, os cabelos de todos eram iguais, mais ou menos do mesmo tamanho. Quanto
menor mais prático e mais gostávamos.
Quando
voltei, meus amigos tinham cabelos longos e usavam roupas completamente
diferentes das minhas e do meu cabelo.
Voltei
já matriculado e há 4 dias do início das aulas, no Colégio Militar. Sem tempo
para desistir.
Me
lembro que fiquei assustado quando percebi como tudo tinha mudado tanto. Viajei
no meio do ano anterior, aos 11 anos, e voltei precisamente 1 ano depois. O
suficiente para o mundo inteiro mudar.
As
roupas, as novas gírias e trejeitos foram assimilados facilmente, com a volta
da convivência. Mas, os meus cabelos...quanta diferença. Me sentia um estranho no próprio ninho.
Depois
de dois anos e meio cortando o cabelo, semanalmente, no modelo recruta, saí do
Colégio Militar. Os meus amigos do bairro, e de infância, não cortavam os seus
há anos.
Me
senti livre como o astro de Hair e cheguei a ter o cabelo mais compridos entre os
da minha turma.
Mas, no
começo, ainda demorou vários meses, até que meu cabelo crescesse o suficiente e
eu me sentisse seguro para frequentar o píer e as dunas da Gal.
EMPATIA - Martha Medeiros
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