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LUIZ FERNANDO VERISSIMO – Neparlepá

A frase era usada como um protesto contra os tempos em que tudo é dito e ouvido por todas as idades. Ne parle pas devant la petite foram as primeiras palavras que a Norinha aprendeu em francês. Ela tinha quatro anos e já sabia algumas palavras em inglês, que ouvia na TV, como yes e lets go., mas as primeiras palavras em francês foram aquelas que sua mãe repetia muito em conversas com seu pai: ne parle pas devant la petite. Norinha usava seu extenso vocabulário para falar com suas bonecas. “Yes” e “let’s go” e “ne parle pas devant la petite”. E uma vez divertiu um grupo de pessoas que visitavam seus pais parando no meio da sala e gritando: – Ne parle pas devant la petite! – Onde foi que você aprendeu isso, menina?! Todos acharam muita graça. Menos a mãe da Norinha, que ficou preocupada. A Norinha ouvia tudo. Tinha curiosidade sobre tudo. Em pouco tempos estaria perguntando o que significava aquele neparlepá que sua mãe tanto dizia. Norinha cresceu, aprendeu que “ne parle pas devant la petite” queria dizer “não fale na frente da criança” e nem precisou perguntar pra mãe o que não era para ela ouvir nas discussões do casal, ou quando a conversa ficava só para adultos. O casamento deles estava se dissolvendo, eles queriam poupar a filha disso. E coisas como sexo e as maldades do mundo não eram para os ouvidos de uma criança. – Vocês esperavam mesmo que eu não fosse notar que o casamento de vocês estava em crise? E que eu acabaria sabendo tudo sobre o que vocês tentavam esconder, não falando na frente da criança? – Naquele tempo era assim, minha filha. Hoje... – Hoje? – disse Norinha. – Eu vou lhe contar como é hoje. E Norinha contou que, quase que por nostalgia, usara a frase da mãe na sua casa. Ela e o marido estavam comentando os excessos de um programa de televisão na presença dos meninos e ela dissera “ne parle pas devant les petits”. E Julio, o marido, dissera: – Ahn? – Ne parle pas devant les petits. É uma frase em francês que quer dizer... – Eu sei o que quer dizer. Mas ninguém mais usa essa frase, Norinha. – Eu sei. É que... – Há uns 40 anos essa frase não é usada. Nem na França. – Eu só acho que certas coisas o Marquinhos e o Lucas ainda não estão em idade de ouvir. – Eles ouvem na rua. Ouvem na escola. Ouvem em toda parte. É só ligarem a televisão que ouvem tudo. – Mas não ouvem dos pais deles. – E você acha isso certo, ou acha uma hipocrisia? E Norminha disse para a mãe que concordava com Julio, que era uma hipocrisia. Mas que mesmo assim começara a usar a frase, quase como um protesto contra os tempos em que tudo é dito e tudo é ouvido por todas as idades. Só que a frase tem tido um efeito inesperado. Quando ela pede para o marido “ne parle pas devant les petits”, Lucas, o menor, diz: – Ih... Olha o neparlepá. Lá vem sacanagem. ---------------------------------------------------------

A COMPENSAÇÃO - Luis Fernando Verissimo

Não faz muito, li um artigo sobre as pretensões literárias de Napoleão Bonaparte. Aparentemente, Napoleão era um escritor frustrado. Tinha escrito contos e poemas na juventude, escreveu muito sobre política e estratégia militar e sonhava em escrever um grande romance. Acreditava-se, mesmo, que Napoleão considerava a literatura sua verdadeira vocação, e que foi sua incapacidade de escrever um grande romance e conquistar uma reputação literária que o levou a escolher uma alternativa menor, conquistar o mundo. Não sei se é verdade, mas fiquei pensando no que isto significa para os escritores de hoje e daqui. Em primeiro lugar, claro, leva a pensar na enorme importância que tinha a literatura nos séculos 18 e 19, e não apenas na França, onde, anos depois de Napoleão Bonaparte, um Vitor Hugo empolgaria multidões e faria História não com batalhões e canhões mas com a força da palavra escrita, e não só em conclamações e panfletos mas, muitas vezes, na forma de ficção. Não sei se devemos invejar uma época em que reputações literárias e reputações guerreiras se equivaliam desta maneira, e em que até a imaginação tinha tanto poder. Mas acho que podemos invejar, pelo menos um pouco, o que a literatura tinha então e parece ter perdido: relevância. Se Napoleão pensava que podia ser tão relevante escrevendo romances quanto comandando exércitos, e se um Vitor Hugo podia morrer como um dos homens mais relevantes do seu tempo sem nunca ter trocado a palavra e a imaginação por armas, então uma pergunta que nenhum escritor daquele tempo se fazia é essa que nos fazemos o tempo todo: para o que serve a literatura, de que adianta a palavra impressa, onde está a nossa relevância? Gostávamos de pensar que era através dos seus escritores e intelectuais que o mundo se pensava e se entendia, e a experiência humana era racionalizada. O estado irracional do mundo neste começo de século é a medida do fracasso desta missão, ou desta ilusão. Depois que a literatura deixou de ser uma opção tão vigorosa e vital para um homem de ação quanto a conquista militar ou política ― ou seja, depois que virou uma opção para generais e políticos aposentados, mais compensação pela perda de poder do que poder, e uma ocupação para, enfim, meros escritores ―, ela nunca mais recuperou a sua respeitabilidade, na medida em que qualquer poder, por armas ou por palavras, é respeitável. Hoje a literatura só participa da política, do poder e da História como instrumento ou cúmplice. E não pode nem escolher que tipo de cúmplice quer ser. Todos os que escrevem no Brasil, principalmente os que têm um espaço na imprensa para fazer sua pequena literatura ou simplesmente dar seus palpites, têm esta preocupação. Ou deveriam ter. Nunca sabemos exatamente do que estamos sendo cúmplices. Podemos estar servindo de instrumentos de alguma agenda de poder sem querer, podemos estar contribuindo, com nossa indignação ou nossa denúncia, ou apenas nossas opiniões, para legitimar alguma estratégia que desconhecemos. Ou podemos simplesmente estar colaborando com a grande desconversa nacional, a que distrai a atenção enquanto a verdadeira história do País acontece em outra parte, longe dos nossos olhos e indiferente à nossa crítica. Não somos relevantes, ou só somos relevantes quando somos cúmplices, conscientes ou inconscientes. Mas comecei falando da frustração literária de Napoleão Bonaparte e não toquei nas implicações mais importantes do fato, pelo menos para o nosso amor próprio. Se Napoleão só foi Napoleão porque não conseguiu ser escritor, então temos esta justificativa pronta para o nosso estranho ofício: cada escritor a mais no mundo corresponde a um Napoleão amenos. A literatura serve, ao menos, para isso: poupar o mundo de mais Napoleões. Mas existe a contrapartida: muitos Napoleões soltos pelo mundo, hoje, fariam melhor se tivessem escrito os romances que queriam. O mundo, e certamente o Brasil, seriam outros se alguns Napoleões tivessem ficado com a literatura e esquecido o poder. E sempre

NATAL - Luís Fernando Verissimo

Natal é uma época difícil para cronistas. Eles não podem ignorar a data e ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto. Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô, cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc), etc. Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes. Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de Deus!"). Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos em algum lugar. Os três conversam. Noel Rosa – Ahm... Sim... Hmm... Noel Rosa – E então? Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz, enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa para eles dizerem. Noel Rosa (tentando de novo) – E aí? Papai Noel – Aqui, na luta. Noel Coward – What? Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal. Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia. _____ ________________

LENDA DE COPACABANA - Luís Fernando Veríssimo

Contam os antigos que há muitos anos, antes mesmo do Eskibon e do Jajá de côco, quando Copacabana ainda era uma praia e não um deserto que acabava no mar, quando ainda havia os postos pintados de branco e calçadão era um sapato grande, um rapaz, um dia, encontrou uma concha à beira-mar. Era no tempo em que ainda havia conchas, e não bisnagas de plástico, à beira-mar. Uma daquelas conchas grandes e retorcidas que você levava ao ouvido e ouvia o ruído do mar, mesmo que estivesse longe do mar. Mas o rapaz levou a concha ao ouvido e não ouviu o ruído do mar. Ouviu uma voz que dizia “Preto dezessete”. Era um rapaz humilde mas ambicioso que morava numa vila de Botafogo e vinha a Copacabana de bonde sempre que podia. Estava estudando, com sacrifício. Não tinha dinheiro para jogar na roleta. Não tinha nem idade para entrar no Cassino da Urca . Mas toda vez que levava a concha ao ouvido ouvia o mesmo sussurro. “Preto dezessete”. Guardou a concha em casa. Não deixava ninguém chegar perto dela, nem a mãe. Volta e meia, ia lá e botava a concha contra o ouvido. Para ter certeza de que não tinha sonhado que ela falava. E ouvia claramente: “Preto dezessete”. Vendeu o que podia (e o que não podia) e com um terno emprestado que o fazia parecer mais velho tocou-se para a Urca . Foi aquela vez que o preto dezessete deu dezessete vezes seguidas. Voltou para casa - de táxi, pela primeira vez na vida - e colocou a concha sobre o ouvido, rindo sozinho. Que número deveria jogar agora? A concha disse para ele aplicar o dinheiro na compra de uma casa em Copacabana, e deu o endereço. Ele conhecia a casa, das suas caminhadas na praia. Estava caindo aos pedaços. Mas a concha insistia. Ele então gastou todo o dinheiro da roleta na compra da casa. Dias depois, recebeu uma oferta de uma construtora pelo terreno. Três vezes o que ele tinha gasto na compra da casa. Aceitou, com uma condição. A cobertura do prédio seria dele. Conselho da concha. Durante quatro, cinco anos, a concha administrou o seu dinheiro. Compra e venda de ações, jóias, imóveis, títulos de mineração. Aos poucos, sua fortuna foi crescendo. Ele tornou-se conhecido como gênio das finanças e playboy. Reinava sobre Copacabana da sua cobertura aberta ao mar. Era visto em passeios solitários pela praia - só ele, seus dálmatas, algumas mulheres e o mordomo com o champanha - com seu talismã, a concha, encostada ao ouvido. De volta ao apartamento despachava telegramas para vários pontos do país e do mundo - isto foi antes do DDD - com ordens para comprar, vender, liquidar, multiplicar. Nunca errava. Não tinha assessores, não consultava ninguém, não lia nada, não trabalhava, apenas ouvia a sua concha e enriquecia. Um gênio, diziam todos. Até que um dia encostou a concha no ouvido e ouviu a voz dizer: - Vende tudo. Vender tudo? Não podia ser. Deu uma sacudida na concha e voltou a encostá-la ao ouvido. - Vende tudo. Pela primeira vez, duvidou de um conselho da concha. Mas não a contrariou. Vendeu tudo. Não foi fácil, mas em poucas semanas tinha transformado todas as suas posses em dinheiro vivo e na mão. E então, de olhos arregalados, ouviu a concha dizer: - Aposta tudo no Uruguai. - No Uruguai?! Essa não. Brasil e Uruguai decidiriam uma Copa do Mundo dali a dias no Maracanã. O Brasil não podia perder. Resolveu desobedecer a concha. Depois disso, durante anos, a concha permaneceu em silêncio. Ele a colocava no ouvido e não ouvia nada. Nem o ruído do mar. Desorientado, aplicou mal seu dinheiro e em pouco tempo acabou sem nada. Tornou-se um vagabundo. Perambulava pela praia, com a concha apertada contra a barriga. Vivia de esmolas e, quando tinha sorte, tatuíras. Até que um dia resolveu atirar a concha de volta ao mar. Ela era um símbolo do seu azar. Levou-a ao ouvido pela última vez... e ouviu, de novo, a voz! - Avestruz. Avestruz! Roubou os óculos raiban que um americano deixara na praia para dar mergulho, vendeu e jogou no bicho. Foi aquela vez que deu avestruz dezessete vezes seguidas. Ele recomeçou s

ESTRAGOU A TELEVISÃO - Luis Fernando Verissimo

― Iiiih... ― E agora? ― Vamos ter que conversar. ― Vamos ter que o que? ― Conversar. É quando um fala com o outro. ― Fala o que? ― Qualquer coisa. Bobagem. ― Perder tempo com bobagem? ― E a televisão o que é? ― Sim, mas aí é a bobagem dos outros. A gente só assiste. Um falar com o outro,assim, ao vivo... Sei não... ― Vamos ter que improvisar nossa própria bobagem. ― Então começa você. ― Gostei do seu cabelo assim. ― Ele está assim há meses, Eduardo. Você é que não tinha... ― Geraldo.― Hein?― Geraldo. Meu nome não é Eduardo, é Geraldo. ― Desde quando? ― Desde o batismo. ― Espera um pouquinho. O homem com quem eu casei se chamava Eduardo. ― Eu me chamo Geraldo, Maria Ester. ― Geraldo Maria Ester?! ― Não, só Geraldo. Maria Ester é o seu nome. ― Não é não. ― Como, não é não? ― Meu nome é Valdusa. ― Você enlouqueceu, Maria Ester? ― Por amor de Deus, Eduardo... ― Geraldo. ― Por amor de Deus, meu nome sempre foi Valdusa. Dusinha, você não se lembra? ― Eu nunca conheci nenhuma Valdusa. Como é que eu posso estar casado com uma mulher que eu nunca... Espera. Valdusa. Não era a mulher do, do... Um de bigode. ― Eduardo. ― Eduardo!― Exatamente. Eduardo. Você. ― Meu nome é Geraldo, Maria Ester. ― Valdusa. E, pensando bem, que fim levou o seu bigode? ― Eu nunca usei bigode! ― Você é que está querendo me enlouquecer, Eduardo. ― Calma. Vamos com calma. ― Se isto for alguma brincadeira sua... ― Um de nós está maluco. Isso é certo. ― Vamos recapitular. Quando foi que nós casamos? ― Foi no dia, no dia... ― Arrá! Está aí. Você sempre esqueceu o dia do nosso casamento. Prova de quev ocê é o Eduardo e a maluca não sou eu. ― E o bigode? Como é que você explica o bigode? ― Fácil. Você raspou. ― Eu nunca tive bigode, Maria Ester! ― Valdusa! ― Está bom. Calma. Vamos tentar ser racionais. Digamos que o seu nome sejamesmo Valdusa. Você conhece alguma Maria Ester? ― Deixa eu pensar. Maria Ester... Nós não tivemos uma vizinha chamada MariaEster? ― A única vizinha que eu me lembro é a tal de Valdusa. ― Maria Ester. Claro. Agora me lembrei. E o nome do marido dela era... Jesus!― O marido se chamava Jesus? ― Não. O marido se chamava Geraldo. ― Geraldo... ― É. ― Era eu. Ainda sou eu. ― Parece... ― Como foi que isso aconteceu? ― As casas geminadas, lembra? ― A rotina de todos os dias... ― Marido chega em casa cansado, marido e mulher mal se olham... ― Um dia marido cansado erra de porta, mulher nem nota... ― Há quanto tempo vocês se mudaram daqui? ― Nós nunca nos mudamos. Você e o Eduardo é que se mudaram. ― Eu e o Eduardo, não. A Maria Ester e o Eduardo. ― É mesmo... ― Será que eles já se deram conta? ― Só se a televisão deles também quebrou. _________________ Se você comprar aqui, a comissão vem para o CULT CARIOCA. Você compra direto no site da MAGALU. Com todas as facilidades e vantagens de entrega e pagamento. E ainda dá uma forcinha pra gente! Obrigado amigos!

A INVENÇÃO DO MILÊNIO - Luis Fernando Verissimo

Qual foi a maior invenção do milênio? Minha opinião mudou com o tempo. Já pensei que foi o sorvete, que foi a corrente elétrica, que foi o antibiótico, que foi o sufrágio universal, mas hoje ― mais velho e mais vivido ― sei que foi a escada rolante. Para muitas pessoas, no entanto, a invenção mais importante dos últimos mil anos foi o tipo móvel de Gutemberg. Nada influenciou tão radicalmente tanta coisa, inclusive a religião (a popularização e a circulação da Bíblia e de panfletos doutrinários ajudaram na expansão do protestantismo), quanto a prensa e o impresso em série. Mas há os que dizem que a prensa não é deste milênio, já que os chineses tiveram a idéia de blocos móveis antes de Gutemberg, e antes do ano 1001, e que ― se formos julgar pelo impacto que tiveram sobre a paisagem e sobre os hábitos humanos ― o automóvel foi muito mais importante do que a tipografia. O melhor teste talvez seja imaginar o tempo comparativo que levaríamos para notar os efeitos da ausência do livro e do automóvel no mundo. Sem o livro e outros impressos seríamos todos ignorantes, uma condição que leva algum tempo para detectar, ainda mais se quem está detectando também é ignorante. Sem o automóvel, não existiriam estradas asfaltadas, estacionamentos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e provavelmente nem os Estados Unidos, o que se notaria em seguida. É possível ter uma sociedade não literária, mas é impossível ter uma civilização do petróleo e uma cultura do automóvel sem o automóvel. Ou seja: nós e o mundo seríamos totalmente outros com o Gutemberg e sem o automóvel, mas seríamos os mesmos, só mais burros, com o automóvel e sem o Gutemberg. É claro que esse tipo de raciocínio ― que invenções fariam mais falta, não num sentido mais nobre, mas num sentido mais prático ― pode ser levado ao exagero. Não seria difícil argumentar que, por este critério, as maiores invenções do milênio foram o cinto e o suspensório, pois o que teriam realizado Gutemberg e o restante da humanidade se tivessem de segurar as calças por mil anos? Já ouvi alguém dizer que nada inventado pelo homem desde o estilingue é mais valioso do que o cortador de unhas, que possibilitou às pessoas que moram sozinhas cortar as unhas das duas mãos satisfatoriamente, o que era impossível com a tesourinha. Tem gente que não consegue imaginar como o homem pôde viver tanto tempo sem a TV e uma geração que não concebe o mundo sem o controle remoto. E custa acreditar que nossos antepassados não tinham nada parecido com tele entrega de pizza. Minha opinião é que as grandes invenções não são as que saem do nada, mas as que trazem maneiras novas de usar o que já havia. Já existia o vento, faltavam inventar a vela. Já existia o bolor do queijo, faltava transformá-lo em penicilina. E já existia a escada, bastava pô-la em movimento. Tenho certeza que se algum viajante no tempo viesse da antiguidade para nos visitar, se maravilharia com duas coisas: o zíper e a escada rolante. Certo, se espantaria com o avião, babaria com o biquíni, admiraria a televisão, mesmo fazendo restrições à programação, teria dúvidas sobre o microondas e o celular, mas adoraria o caixa automático, mas, de aproveitável mesmo, apontaria o zíper e a escada rolante, principalmente esta. Escadas em que você não subia de degrau em degrau, o degrau levava você! Nada mais prático na antiguidade, onde escadaria era o que não faltava. Com o zíper substituindo ganchos e presilhas, diminuindo o tempo de tirar e botar a roupa e o risco deflagrantes de adultério e escadas rolantes facilitando o trânsito nos palácios, a antiguidade teria passado mais depressa, a Idade Moderna teria chegado antes, o Brasil teria sido descoberto há muito mais tempo e todos os nossos problemas já estariam resolvidos ―faltando só, provavelmente, a reforma agrária. E o Homem do milênio? Se não foi o Gutemberg, quem foi? Também depende dos critérios. Se o fato mais importante do mundo no fim do milênio é a globalização, então devemos honrar o ho

A CIDADEZINHA NATAL - Luís Fernando Veríssimo

Idéia para uma história. Homem chega num carro com motorista a uma cidadezinha do interior. Manda estacionar o carro na única praça da cidadezinha, em frente à única igreja, e diz para o motorista ficar esperando no carro enquanto ele inspeciona a cidadezinha a pé. Não leva muito tempo. A cidadezinha é quase nada. A praça, a igreja, a prefeitura, algumas casas em volta da praça, poucas ruas. O prédio mais alto da cidadezinha tem quatro andares. É o que fica em cima da maior loja da cidade, a Ferreira e Filhos, que vende de tudo. O homem entra no único boteco da praça, pede uma cerveja e puxa conversa. Quer saber quem é que manda na cidadezinha. Há quatro ou cinco pessoas no boteco, que não pararam de observar os movimentos do homem desde que ele desceu do seu carro com motorista. O maior carro que qualquer uma delas jamais tinha visto. Ninguém fala. O homem repete a pergunta. Quem é que manda na cidadezinha? As pessoas se entreolham. Finalmente o dono do boteco responde. ― O prefeito é o dr. Al... ― Não, não. Não perguntei o prefeito. O que manda mesmo. ― É o Ferreira Filho. ― O da loja? ― É. ― Ele manda na cidade? ― Não tem alguém mais alto? ― Tem o delegado Fro... ― Polícia, não. Alguém mais alto. ― Tem o padre Túlio. ― O padre Túlio manda no Ferreira Filho? ― Bom... ― começa a dizer o dono do boteco. ― Só quem manda no Ferreira Filho é a dona Vicentina ― interrompe alguém, e todos caem na risada. ― A esposa dele? Mais risadas. Não, não é a esposa. Nem a mãe. Dona Vicentina é uma costureira que não costura. O atelier da dona Vicentina ocupa uma pequena sala na frente da sua casa, mas está sempre vazio. O verdadeiro negócio da dona Vicentina, e suas sobrinhas, acontece nos fundos da casa. É lá que ela recebe o Ferreira Filho, e o prefeito, e o delegado e, desconfiam alguns, até o padre Túlio. Se alguém manda no Ferreira Filho, e na cidadezinha, é a dona Vicentina. Portanto é na sala dos fundos da casa da dona Vicentina que o homem reúne as autoridades, oficiais e reais, da cidadezinha, naquela mesma noite, e faz a sua oferta. Quer comprar a cidadezinha. Como comprar? Comprar. Cash. Tudo. A praça, os prédios, a população, tudo. E os arredores até o cemitério. Mas como? Não é possível. Há impecilhos legais, há...Todos os protestos cessam quando o homem revela a quantia que está disposto a pagar por tudo, e por todos. É uma quantia fabulosa. Em troca, pede pouca coisa. Um retoque na praça, onde ele quer que seja construído um coreto sob uma árvore milenar, que também deve ser providenciada. Cada habitante da cidade, ao receber o seu dinheiro, receberá junto instruções sobre o que dizer, quando forem perguntados. Dirão que se lembram, sim, do homem. Que ele nasceu e cresceu, sim, na cidadezinha. Que era filho da dona Fulana e do seu Sicrano (os nomes serão fornecidos depois). Que muito brincou na praça, sob a árvore milenar. Que estudou na escola tal, com a professora tal, que terá muitas boas lembranças dele. Uma das habitantes mais antigas da cidadezinha será escolhida para fazer o papel da professora tal. Cada habitante da cidadezinha terá seu papel. Só o que precisarão fazer, quando forem perguntados, é contar histórias sobre a infância e a adolescência do homem na cidadezinha. As histórias também serão fornecidas depois. ― Mas perguntados por quem? ― quer saber Ferreira Filho. ― Por repórteres. Virão muitos repórteres aqui. ― Por quê? O homem não diz. Pergunta se está combinado. Se pode contar com a cidadezinha e com seus habitantes. Todos concordam. Está combinado. Dona Vicentina diz que se alguém não concordar, vai ter que se ver com ela. No dia seguinte, depois de dizer que o dinheiro e as instruções virão em poucos dias e antes de entrar no carro, o homem olha em volta da praça, examinando cada uma das casas ao seu redor. Finalmente, escolhe uma, aponta, e diz: ― Se perguntarem, eu nasci ali. Entra no carro e vai embora. Poucos dias depois chegam o dinheiro e as instruções, ou os papéis a serem distribuídos entre os habi

CONTO DE FADAS DO SÉCULO XXI - Luis Fernando Verissimo

Era uma vez, numa terra muito distante uma linda princesa independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago de seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então a rã pulou no seu colo e disse: - Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bom. Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformou-me nessa rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo e poderemos casar e constituir um lar feliz em teu lindo castelo. A minha mãe pode vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre! Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: “- Imagina, largar essa vida de princesa pra ser doméstica!” ________________________________________________________________________ DE ONDE VÊM OS NOMES DAS NOTAS MUSICAIS? _______________________________________________ SIM, EXISTEM VERDADES ABSOLUTAS Edmir Saint-Clair ____________________________________________________

FIU-FIU - Luís Fernando Verissimo

Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo. — Bem, não me espere para o jantar... — Onde você está? — Sabe a nossa pesca submarina? — O que houve? — Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção. — Você ainda está embaixo d’água?! — Estou. — E o seu arpão? — O tubarão engoliu! — Ligue para a Guarda Costeira! São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares, e agora nem as piscinas estão seguras. Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem — a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste? Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio? O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles agora podem atravessar o fosso. Subscribe in a reade r _________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair _____________________________________________________________ ________________________________________

O QUE FAZ BEM PRA SAÚDE? - Luis Fernando Verissimo

Cada semana, uma novidade. A última foi que pizza previne câncer do esôfago. Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas peraí, não exagere... Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz eu me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais os médicos deveriam proibir - como doem! Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar. Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou muzzarela que previna. Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, UAU! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Beijar é melhor do que fumar. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Pergunta é melhor do que dúvida. Tomo pouca água, bebo mais que um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada. Luís Fernando Verissimo ___________________________________________________________________________________________________________ ______ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair _____________________________________________________________ ________________________________________

DESMORONANDO - Luiz Fernando Verissimo

Juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. Eu não disse para ninguém que deveria estar morto O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido...” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente. No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto. _______________________________________________________________________________________ ______________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair Contos e Crônicas _____________________________________________________________ ________________________________________

O QUE MOVE A HISTÓRIA - Luiz Fernando Verissimo

Os pais de Adolph Hitler teriam sido aconselhados a levar o menino para uma consulta com um médico que estava revolucionando o tratamento de distúrbios mentais, em Viena. Mas decidiram que o que o Adolphinho fazia com insetos era normal para a idade dele e não procuraram o Dr. Freud. O resultado foi o que se viu. Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século 20 era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império Austro-Húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o novo século restauraria a idade das trevas. O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza este prenúncio, ou esta intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico. A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade, ou clínicas como a maluquice de alguém, influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte da direita cristã europeia da sua cumplicidade. Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie. O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. Assim a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional. Pois gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia. _______________________________________________________________________________________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair Contos e Crônicas _____________________________________________________________ ________________________________________

A MULHER DO VIZINHO - Luís Fernando Verissimo

Sérgio abriu a porta e era a mulher do vizinho. A fantástica mulher do vizinho. A fantástica mulher do vizinho dizendo "Oi". A fantástica mulher do vizinho perguntando, depois do "Oi", se podia pegar uma toalha que tinha voado da sacada deles. "Sabe, o vento"― para a sacada dele. ― Entre, entre, disse o Sérgio, checando, rapidamente, com a mão, se sua braguilha não estava aberta. Morava sozinho, às vezes se descuidava dessas coisas.Ela começou a entrar, mas parou. Ficou como que paralisada, só os olhos se mexendo. Os grandes olhos verdes e arregalados indo de um lado para o outro. ― Ih ― disse a mulher do vizinho. ― Surtei. ― Que foi? ― perguntou Sérgio, já pensando em como socorrê-la ("Vamos ter de desamarrar esse bustiê"), já pensando em ambulância, hospital, confusão, mal-entendido com o vizinho... Mas ela explicou: ― O seu apartamento é exatamente o oposto do nosso. Preciso me acostumar... Ela entrou devagarinho. Como se, além de ser o avesso do seu, o apartamento do Sérgio pudesse conter outras surpresas. O chão podia estar no teto e o teto no chão. ― Que coisa! ― disse a mulher do vizinho, passando por Sérgio e parando no meio da sala. Exatamente o que Sérgio tinha pensado ao ver que sobrava um pouco de nádega onde acabava o shortinho da mulher do vizinho. No caso, que coisas! ― Você quer sentar? ― Como? ― Até se orientar... Ela sentou-se, ainda maravilhada. ― Nossa televisão também fica ali, só que ao contrário! Ele tentou acalmá-la. ― Você quer um copo d'água ― Você é solteiro?― Sou. ― Meu marido é casado. Aliás, comigo. Viu só ― O quê? ― É tudo ao contrário! ― É. Eu... ― Palmeiras ou Corinthians? ― Corinthians. ― Ele é Palmeiras! ― Puxa. ― Destro ou canhoto! ― Destro. ― Meu marido é canhoto! ― E você ― Eu o quê? ― Palmeiras ou Corinthians? Destra ou canhota? Ela tinha se levantado e estava andando pela sala. Cuidadosamente, até se acostumar com tudo ao contrário. Disse: ― Não dou muita importância para essas coisas. Foi nesse momento que Sérgio se apaixonou pela mulher do vizinho. Os grandes olhos verdes tinham ajudado, claro. Os nacos de nádega sobrando do shortinho também. As coxas longas, sem dúvida. O "erre" meio carregado (ela dissera "Palmeirrras" e Corrinthians", em alemão) contribuíra. Mas Sérgio se apaixonou pela mulher do vizinho quando ela declarou que não dava muita importância para essas coisas, times de futebol, ser destro ou canhoto... Ficou esperando que ela dissesse "Isso é coisa de homem" para se atirar aos seus pés e beijá-los, mas ela não disse. Ela conseguiu chegar até a sacada, apesar de desorientada,e apanhar a toalha. Mas, quando se virou para reentrar na sala, ficou paralisada outra vez.Ficou em pânico. ― Ai meu Deus. ― O que foi? ― A porta da rua. Onde fica a porta da rua? ― É aquela ali.― Ai meu Deus. Eu não consigo me orientar. ― Pense no meu apartamento como o seu apartamento visto no espelho. A esquerda fica na direita e a direita... ― Por favor: esquerda e direita não, senão complica ainda mais! Ele foi buscá-la. Ele foi salvá-la da sua confusão. Ele enlaçou sua cintura com um abraço, segurou a sua mão e começou a acompanhá-la até a porta, como se dançassem um minueto. Pensou em dizer que também estava desorientado (o amor, o amor) e levá-la para o seu quarto, para a sua cama. Imaginou-se tendo dificuldade para desamarrar o bustiê, os doischegando à conclusão que no apartamento dele o bustiê deveria ser desamarrado aocontrário, depois desistindo de desamarrar o bustiê e se amando. O bustiê arrancado. O shortinho arrancado. E a mulher do vizinho, como se não bastassem o "erre" um pouco carregado e tudo mais, revelando que não usava calcinha. E dizendo que ele era tudo que o vizinho não era. Que ele era o oposto do vizinho em tudo. Em tudo! Mas chegaram, não ao orgasmo simultâneo ("Com ele isto nunca aconteceu, com ele é o contrário!"), mas à porta. Ela agradeceu, se despediu e já ia saindo, levando a sua toalha, e todas as esperanças do Sérgio, quando se virou, deu outra passada de grande

APELIDOS - Luis Fernando Verissimo

Minha tese é a seguinte: o que falta para qualquer relacionamento dar certo é o apelido. O homem e a mulher – ou o homem e o homem e a mulher e a mulher, ninguém aqui tem preconceito – devem providenciar apelidos um para o outro assim que o relacionamento der sinais de que vai ser sério. Não valem apelidos já existentes, de infância. Os dois devem se dar apelidos novos, só deles. Pichuchinha. Gongonzongo. Não importa que sejam ridículos. O apelido é uma forma de você tomar posse de outra pessoa. Dos dois anularem suas identidades anteriores e assumirem outras, só deles. Por isso a troca de apelidos entre namorados deveria ter a solenidade de um batizado, sem padre nem testemunhas. Deveria ser um sacramento secreto, um ritual particular de apropriação mútua, para toda a vida. Uma união só é indissolúvel com apelidos. O único amor verdadeiro é o amor com apelido. – Sei não. Romeu e Julieta... – Não tiveram tempo de ser “Ro” e “Juju”. – O Duque e a Duquesa de Windsor? – “Bobsky” e “Bubsky”. Li em algum lugar. O importante é não esperar para se darem apelidos. Achar que com o tempo os apelidos virão. É um erro pensar que uma união feliz produz apelidos carinhosos. É o contrário: apelidos carinhosos produzem uniões felizes. Claro, há sempre o perigo de um apelido entre casais ser usado para chantagem. Um homem chamado de “Tiquinho” em segredo pela mulher jamais se separará dela com medo que ela espalhe o apelido e explique sua origem. E há casos pungentes. – Bem, posso lhe pedir um favor? – Qual é? – Em vez de “Chururuca”... – Sim? – Pode ser “Morenão”? – “Morenão”?! – Ninguém vai ficar sabendo. – Mas você nem moreno é! – Eu sei. Mas eu prefiro “Morenão”. – Tá bem. Ela passaria a chamá-lo de “Morenão” quando estivessem sozinhos. Mas com uma ressalva: – Sem efeito retroativo. _______________________________________________________________________________________________________________________________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair Contos e Crônicas _____________________________________________________________ ________________________________________ Subscribe in a reader BISCOITO GLOBO: a história de um ícone carioca MUSÉE D'ORSAY - PARIS - Tour virtual - Você controla o que quer ver - Obra por obra JÔ SOARES: O gordo e o motel ARTHUR SCHOPENHAUER - A INTUIÇÃO É MAIS FORTE QUE A RAZÃO SÓCRATES - O Filósofo - As Três peneiras EPICURO - (Filósofo Grego) - Felicidade e Prazer

A ORIGEM FEMININA - Luís Fernando Verissimo

Existem várias lendas sobre a origem da Mulher. Uma diz que Deus pôs o primeiro homem a dormir, inaugurando assim a anestesia geral, tirou uma de suas costelas e com ela fez a primeira mulher. E que a primeira provação de Eva foi cuidar de Adão e agüentar o seu mau humor, enquanto ele convalescia da operação. Uma variante desta lenda diz que Deus, com seu prazo para a Criação estourado, fez o homem às pressas, pensando “Depois eu melhoro”, e mais tarde, com tempo, fez um homem mais bem-acabado, que chamou Mulher, que é “melhor” em aramaico. Outra lenda diz que Deus fez a mulher primeiro, e caprichou nas suas formas, e aparou aqui e tirou dali, e com o que sobrou fez o homem só para não jogar barro fora. Zeus teria arrancado a mulher de sua própria cabeça. Alguns povos nórdicos cultivam o mito da Grande Ursa Olga, origem de todas as mulheres do mundo, o que explica o fato das mulheres se enrolarem periodicamente em pêlos de animais, cedendo a um incontrolável impulso atávico, nem que seja só para experimentar, na loja, e depois quase desmaiar com o preço. Em certas tribos nômades do Meio Oriente ainda se acredita que a mulher foi, originariamente, um camelo, que na ânsia de servir seu mestre de todas as maneiras foi se transformando até adquirir sua forma atual. No Extremo Oriente existe a lenda de que as mulheres caem do céu, já de kimono. E em certas partes do Ocidente persiste a crença de que mulher se compra através dos classificados, podendo-se escolher idade, cor da pele e tipo de massagem. Todas estas lendas, claro, têm pouco a ver com a verdade científica. Hoje se sabe que o Homem é o produto de um processo evolutivo que começou com a primeira ameba a sair do mar primevo, e é o descendente direto de uma linha específica de primatas, tendo passado por várias fases até atingir o seu estágio atual e aí encontrar a Mulher, que ninguém ainda sabe de onde veio. É certamente ridículo pensar que as mulheres também descendem de macacos. A minha mãe, não! Uma das teses mais aceitáveis sobre o papel da mulher na evolução do homem é a de que o primeiro encontro entre os dois se deu no período paleolítico, quando um homo-sapiens mas não muito, chamado, possivelmente, Ugh, saiu para caçar e avistou, sentado numa pedra, penteando os cabelos, um ser que lhe provocou o seguinte pensamento, em linguagem de hoje: ” Isso é que é mulher e não aquilo que tenho na caverna”. Ugh aproximou-se da mulher e, naquele seu jeitão, deu a entender que queria procriar com ela. ” Agh maakgrom grom”, ou coisa parecida. A mulher olhou-o de cima a baixo e desatou a rir. É preciso lembrar que Ugh, embora fosse até bem apessoado pelos padrões da época, era pouco mais do que um animal aos olhos da mulher. Tinha a testa estreita e as mandíbulas pronunciadas e usava gordura de mamute nos cabelos. A mulher disse alguma coisa como “Você não se enxerga, não?” e afastou-se, enojada, deixando Ugh desolado. Antes dela desaparecer por completo, Ugh ainda gritou: “Espera uns 10 mil anos pra você ver!”, e de volta à caverna exortou seus companheiros a aprimorarem o processo evolutivo. Desde então, o objetivo da evolução do homem foi o de proporcionar um par à altura para a mulher, para que, vendo o casal, ninguém dissesse que ela só saía com ele pelo dinheiro, ou para espantar assaltantes. Se não fosse por aquele encontro fortuito em alguma planície do mundo primitivo, o homem ainda seria o mesmo troglodita desleixado e sem ambição, interessado apenas em caçar e catar seus piolhos, e um fracasso social. Mas de onde veio a primeira mulher, já que podemos descartar tanto a evolução quanto as fantasias religiosas e mitológicas sobre a criação? Inclino-me para a tese da origem extraterrena. A mulher viria (isto é pura especulação, claro) de outro planeta. Venho observando-as durante anos - inclusive casei com uma, para poder estudá-las mais de perto - e julgo ter colecionado provas irrefutáveis de que elas não são deste mundo. Observei que elas não têm os mesmos instintos qu

A DANÇA DA MAÇA - Luís Fernando Verissimo

Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente. ― Oi. ― Oi. Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço. ― Este é o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo? ― Arlei disse o mais moço. ― Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudança. ― Bom dia ― disse Luiza. ― Já está tudo mais ou menos separado. Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesade desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta. ― Eu resolvi levar a poltrona ― disse Antônio. ― Tudo bem ― disse Luiza. ― É isso aí, pessoal ― disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali. Seu Molina estava examinando a taça. ― É para o casal ― disse. A inscrição na taça era "Campeões do Declaton dos Casais, Hotel das Flores, 1992― Antônio e Luiza". O Declaton dos Casais incluía corrida do saco, corrida de pedalinho nolago do hotel e a dança da maçã. Uma maçã era colocada entre os joelhos do casal e elestinham de fazê-la chegar à boca sem usar as mãos. ― Eu não quero a taça ― disse Luiza. ― Eu também não ― disse Antônio. ― 1992... disse o seu Molina. ― Era a lua-de-mel? Luiza e Antônio se entreolharam, mas só por um segundo. ― Mais ou menos ― disse Antônio. ― Quem diria, não é? ― disse o seu Molina. ― O quê?― Em 1992. Que ia acabar assim. Antônio não podia dizer para o seu Molina não se meter na vida deles. Afinal, era um senhor. Pediu para o Arlei: ― Vamos começar? Mas o Arlei estava mostrando um álbum que tirara de uma das sacolas de plástico. ― Álbum de fotografia. Vai também? ― Vai ― disse Luiza. Tudo que está nas sacolas vai embora. Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina:― Olha os dois na praia. E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo,querendo dizer "Sim senhora, hein?", e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza. ― Você não quer ficar com o álbum? Luiza perdeu a paciência.― Não quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele. ― Podemos começar? ― pediu Antônio. Arlei estava examinando os CDs dentro de outra sacola. ― A divisão dos CDs... ― disse. ― Foi de comum acordo ou... ― Eu fiquei só com os que já eram meus.― Você não quer examinar? A pergunta de Arlei era para Antônio. ― Não. Isso tudo já estava combinado ― respondeu Antônio. E, pegando uma dassacolas do chão para dar o exemplo, pediu. - Vamos começar a levar para o caminhão? Mas Arlei continuava a examinar os CDs e seu Molina continuava com a taça nas mãos. ― E a taça? ― perguntou o seu Molina. ― O senhor quer ficar com ela? Pode ficar. ― Foi vocês que ganharam ― disse o seu Molina. E depois: ― O que era o Declaton dos Casais? ― Tinha de tudo. Corrida de saco, corrida de pedalinhos, dança da maçã... Seu Molina e Arlei, um uníssono:― Dança da maçã? ― É. Colocaram uma maçã entre as pernas de cada casal, na altura dos joelhos, eganhava quem conseguisse que a maçã chegasse na boca, para ser mordida, sem usar as mãos. Lembra, Lu? Luiza então estava sorrindo com a lembrança. ― É. A gente tinha de se contorcer toda, para fazer a maçã andar. Quem deixasse cair no chão, perdia. ― E vocês conseguiram morder a maçã? ― Conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.― Lembra do casal cearense, Lu? ― Lembro! Ela foi ajudar com o joelho e acabou acertando o marido bem no...Bem ali. ― E ele saiu pulando e gritando "Mulher, não maltrate o que é seu!" Os dois deram risadas, depois Antônio ficou sério e disse: ― Bom, mas chega de lembranças. Vamos fazer essa mudança. Se o senhor quiser pode ficar com a taça, seu Molina. ― Eu não. Uma lembrança destas, de um tempo tão alegre... Nenhum de vocês quer ficar com ela, mesmo? ― Está bem, eu fico. Antônio e Luiza tinham falado ao mesmo tempo. E se corrigiram ao mesmo tempo: ― Fica v

A CANTADA - Luis Fernando Verissimo

Quero ir para a cama com você. - O que?! - No momento em que vi você entrando no bar, pensei: quero ir para a cama com essa mulher. - Olha aqui, não sei quem você pensa que eu sou, mas... - Por favor, não se ofenda. Talvez não aconteça, nós irmos juntos para a cama. Provavelmente não vai acontecer. Mas achei que você deveria saber o sentimento que despertou em mim, no momento em que a vi. Eu sei, você deve estar pensando quem é esse maluco que sai da mesa dele e vem até a minha me dizer que quer ir para a cama comigo? Que nem sabe o meu nome ou qualquer outra coisa a meu respeito, que nem liga para o homem que está comigo e daqui a pouco vai se levantar e pedir satisfações. Mas acredite, eu não sou um louco. Minhas intenções são as mais puras, eu... - Puras?! Você vem aqui dizer na minha cara e na cara do meu namorado que quer fazer sexo comigo e... - Espera aí. Quem falou em sexo? Eu não falei em sexo. - Como? - Cama não é só para sexo. - Não entendi... - Eu disse que queria ir para a cama com você. Não fazer sexo. - Você quer dormir comigo, é isso? Dormir mesmo. Só dormir. - Não. Só dormir, não. Tudo que vem antes, durante e depois de dormir. Tudo que um casal faz junto, quando está casado há tempo. Os velhos hábitos. Quem dorme de que lado, quem fica lendo até tarde e o outro reclama. Quem tem pés frios e faz questão de encostá-los nos pés do outro. As conversas de cama. Como foi o seu dia? Como está á sua lombalgia? Quando será que os netos vêm nos visitar? Nos imaginei acordando na mesma cama, os dois meio emburrados pelo sono. A decisão de todos os dias: quem vai ao banheiro primeiro? O que os dois fazem no banheiro? As escovas de dente dos dois, lado a lado. Existe coisa mais comovente do que duas escovas de dente lado a lado num banheiro? Me imaginei de pijama amarrotado, e você de camisola de flanela. Quando você entrou no bar, tive uma visão: você de camisola de flanela. - Mas tudo isso só vem depois de muitos anos de casados. - Claro. - E de sexo. - Bom, se você quiser pensar assim... Mas o sexo seria apenas uma etapa.

A FAMOSA SAMANTA - Luis Fernando Verissimo

― Quer dizer que eu finalmente vou conhecer a famosa Samanta... ― disse Gustavo. ― Você vai amar a Samanta, Gu! ― disse Suzaninha. Suzaninha não parara de sorrir desde que recebera o telefonema da irmã dizendo que chegaria no dia seguinte e ficaria com eles. Samanta não era apenas sua irmã mais velha. Era o seu ídolo. Gustavo já cansara de ouvir as histórias da Samanta que Suzaninha contava com os olhos brilhando. Samanta fumando na mesa para desafiar o pai, e apagando o cigarro no pudim para escandalizar a mãe. Samanta namorando três ao mesmo tempo e tratando os namorados como empregados ("Homem só serve para carregar peso" era uma das suas frases). Samanta não apenas aderindo a todas as causas nobres como assumindo a liderança do movimento. Samanta mandando em todos à sua volta, e sempre conseguindo o que queria. Samanta brilhante. Samanta fantástica. Samanta irresistível.Gustavo não estava em casa quando Samanta chegou. Suzaninha abraçou a irmã, emocionada, mas Samanta a afastou, examinou seu rosto e sua roupa e decretou: ― Você está péssima. ― Você está linda! ― Esse seu marido não cuida de você, não? ― Cuida. Ele é formidável. Você vai ver. E depois: ― Você vai amar o Gustavo, Sam! Samanta dormiria numa cama de armar na salinha do computador do Gustavo, que desocupara uma das suas estantes para a cunhada pôr suas coisas. Depois de examinar todo o apartamento com uma leve expressão de nojo ("Pequeno, não é?"), Samanta se atirara numa poltrona, aceitara uma bebida ("Coca daiti com uma rodela de limão e pouco gelo") e passara a fazer um relatório de casa, onde, para resumir, continuava tudo a mesma merda, inclusive o pai e a mãe. A novidade era ela. Samanta tinha um plano. ― Suzeca, decidi ter um filho.― O quê?! ― Um filho. Você sabe, aquelas coisas que saem de dentro da gente e fazem barulho. ― Mas assim, sem mais nem menos? Suzana queria dizer "sem casamento nem marido?" ― Sem mais nem menos, não. Será uma coisa muito bem planejada. Para começar, preciso encontrar o homem ideal. É para isso que estou aqui. ― Não era você que dizia que homem só serve para carregar peso? ― E segurar a porta. Era. Mas reavaliei meus conceitos. Também servem como reprodutores, até que inventem coisa melhor. Segundo Samanta, só os mortos nunca mudavam de filosofia. Samanta pôs-se a descrever o homem que procurava. O físico. O temperamento. O jeito de ser. O posicionamento político ("De esquerda, mas não muito"). E quanto mais Samanta falava, mais Suzaninha tentava controlar o pensamento que a assolava, o vazio no seu estômago que aumentava, a certeza que crescia. Mas não havia como evitar a conclusão aterradora: Samanta procurava um homem como Gustavo. E Samanta sempre conseguia o que queria. Quando finalmente Samanta disse "Mas chega de falar de mim, me conte sobre você, Suzeca. Você sente muito a minha falta?" Suzana tinha decidido o que fazer. E quando Samanta comentou que Gustavo estava custando a chegar, que não podia esperar para conhecer o famoso Gustavo, disse: ― Eu me esqueci. Hoje ele tinha médico. ― Médico? Algum problema? ― Nada demais. Quer dizer, é chato mas... ― Suzeca. Não me diz que... Suzaninha fez que "sim" com a cabeça. Sim, era o que Samanta estava pensando. ― Disfunção erétil ― Suzeca! Mas hoje existem esses remédios... ― Nada funciona com o Gustavo. Quando Gustavo chegou, deu com as duas irmãs abraçadas no sofá, Samanta acariciando a cabeça de Suzaninha e dizendo: ― Suzeca, Suzeca... Durante o jantar, Suzaninha viu Samanta examinando Gustavo e pensou: "Ela deve estar pensando ele é tudo que eu queria, mas não serve, maldição, não serve, pobre da Suzaninha." E Samanta, examinando Gustavo, pensou "Hmmm, essa disfunção erétil eu curo, ah se não curo". Pois Samanta não apenas descobrira o reprodutor que queria, também descobrira outra causa nobre. Suzaninha ainda a agradeceria.

COMPENSAÇÕES - Luis Fernando Verissimo

Você prefere a paz que só produz o relógio cuco ou a confusão que produz dois, três, muitos Leonardo da Vinci? Perguntaram ao escritor sulista americano William Faulkner como ele explicava o florescimento literário havido no Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil e sua resposta foi sucinta: “Nós perdemos.” A humilhação da derrota e o fim de um tipo de vida explicavam a literatura, que misturava nostalgia, decadência, romantismo sombrio e um certo preciosismo “faisandé”. O estilo perdurou até autores modernos como Truman Capote, Carson McCullers, Flannery O´Connor, Tennesse Williams e o próprio Faulkner, e ganhou um nome: “gótico sulista”. O Sul perdeu a guerra, mas criou um gênero. Quando Homero disse (se é que disse mesmo, nada que se sabe de Homero é cem por cento certo, nem a sua existência) que as guerras aconteciam para serem cantadas pelos poetas, não queria dizer que a arte compensava tudo. Ou queria? Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro “Guernica”, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: “Ah, foi você que fez isso, não foi?” Ao que Picasso teria respondido: “Não, foram VOCÊS que fizeram isso.” Por um tortuoso raciocínio homérico se poderia concluir que os alemães foram coautores da pintura. Pelo mesmo raciocínio, louve-se a perseguição fascista na Europa pelo exílio de tantas mentes superiores e tanto talento na América, louve-se a escravatura pela nossa rica cultura negra e louve-se as agruras do nosso agreste pelos bons escritores e artistas nordestinos. Tudo isto foi sintetizado naquela celebre fala que deram para o Orson Welles (há quem diga que a fala foi escrita pelo próprio Welles) no filme “O terceiro homem”, adaptado de um romance do Graham Greene. Para justificar seu mau caráter, Welles compara a conturbada história da Itália antes da unificação com a milenar placidez da Suíça. Enquanto a Itália, junto com conspiradores, corruptos e canalhas tinha produzido alguns dos maiores gênio da humanidade, a bem comportada Suíça só produzira o relógio cuco. Mas a ideia de que arte compensa qualquer barbaridade é perigosa. Melhor dizer que os eventuais benefícios de crimes históricos não os absolvem. São efeitos acidentais, como certos queijos que descendem do leite estragado. E você, prefere a paz que só produz o relógio cuco ou a confusão que produz dois, três, muitos Leonardo da Vinci?

O DIA DA AMANTE - Luís Fernando Veríssimo

Já existe dia de quase tudo. Ou quase todos. Começou com o Dia das Mães. Um americano, cujo nome até hoje é reverenciado onde quer que diretores lojistas se reúnam, mas que no momento me escapa, foi o inventor do Dia das Mães. Fez isso pensando na própria mãe. Naquela mulher extraordinária que o carregara no ventre durante nove meses sem cobrar um tostão, que o amamentara, que o embalara em seu berço, costurara a sua roupa, forçara óleo de rícino pela sua goela abaixo e uma vez, quando o descobrira dando banho no cachorro no panelão de sopa, quebrara uma colher de pau na sua cabeça. Sim, aquela mulher que se sacrificara por ele sem pedir nada de volta, mas que agora exigia uma mesada maior porque estava perdendo demais nos cavalos. De nada adiantara o seu protesto. - Não posso, mamãe. Os negócios não vão bem. - Não interessa. - Nós só ganhamos dinheiro mesmo no Natal. No resto do ano... E então o rosto dele se iluminara. Tivera uma idéia. A mãe não entendeu e espalhou para os seus amigos no hipódromo que o filho finalmente perdera o juízo que tinha. Mas a idéia era brilhante. Ele a apresentou numa reunião de varejistas naquele mesmo dia. - Precisamos criar dois, três, muitos Natais! - Espera aí - disse alguém. - Mas só houve um Jesus Cristo. - E os apóstolos? São doze apóstolos. Cada um também não tinha o seu aniversário? - Mas ninguém sabe o dia. - Melhor ainda. Inventaremos, todo mês, o aniversário de um apóstolo. Teremos natais o ano inteiro! Mas a idéia não agradou. Apóstolo não tinha o apelo de vendas de um Jesus Cristo. Mesmo assim, a idéia de criar outras datas para os fregueses se darem presentes era boa. Era preciso motivar as pessoas. Era preciso forçar as vendas. Era preciso ganhar mais dinheiro. Nem que fosse para a mãe perder nos cavalos. - Aquela bruxa velha - murmurou ele. - O que foi? - Estava pensando na mãe. - A mãe! É isso! - O quê? - A mãe! O Dia das Mães. Você é um gênio! Foi um sucesso. Ninguém podia chamar aquilo de oportunismo comercial, pois ser contra o Dia das Mães equivaleria a ser contra a Mãe como instituição. Isto chocaria a todos, principalmente às mães. Que, como se sabe, formam uma irmandade fechada com ramificações internacionais. Como a Máfia. As mães também oferecem proteção e ameaçam os que se rebelam contra elas com punições terríveis que vão da castração simbólica à chantagem sentimental. Pior que a Máfia, que só joga as pessoas no rio com um pouco de cimento em volta. O Dia dos Pais também nasceu nos Estados Unidos, mas custou a aparecer devido ao puritanismo que, sabidamente, influenciou a história americana durante anos. Foi só na década de 20 deste século que os americanos estabeleceram uma relação entre o ato sexual e a procriação de filhos. Até então julgava-se que as mães geravam os filhos sozinhas e que o sexo, como a bebida e um joguinho de cartas, era apenas uma coisa que os homens gostavam de fazer aos sábados. Instituída a proibição do sexo em todo território nacional - a chamada Lei Neca, uma corolária da Lei Seca - notou-se uma acentuada queda no número de nascimentos. Concluíu-se então que o homem era importante. A nova importância atribuída ao homem foi veementemente combatida pelas mulheres da época e até hoje existem bolsões de resistência. Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador. Estabelecido o papel essencial do homem na constituição da família, no entanto, não tardou para que o varejistas lançassem o Dia dos Pais - também chamado, por alguns homens, de Dia do Papai Aqui e por algumas mulheres, com um sorriso secreto, de Dia do Pai Presumível. Outro sucesso de vendas. Dia da Secretária. Este também teve uma origem curiosa. Segundo algumas versões, ele começou no Brasil, quando uma mulher descobriu na agenda do marido a seguinte inscrição: "Flores e bombons para a Bete. Mandar entregar no motel". - Quem é

A Casa Encantada & À Frente, O Verso.

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Livros de Edmir Saint-Clair

RACISMO AQUI NÃO!

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