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EMPATIA - Martha Medeiros


As pessoas se preocupam em ser simpáticas, mas pouco se esforçam para ser empáticas, e algumas talvez nem saibam direito o que o termo significa. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreendê-lo emocionalmente. Vai muito além da identificação. Podemos até não sintonizar com alguém, mas nada impede que entendamos as razões pelas quais ele se comporta de determinado jeito, o que o faz sofrer, os direitos que ele tem. Nada impede? Foi força de expressão. 
O narcisismo, por exemplo, impede a empatia. A pessoa é tão autofocada, que para ela só existem dois tipos de gente: os seus iguais e o resto, sendo que o resto não merece um segundo olhar. Narciso acha feio o que não é espelho. Ele se retroalimenta de aplausos, elogios e concordâncias, e assim vai erguendo uma parede que o blinda contra qualquer sentimento que não lhe diga respeito. Se pisam no seu pé, reclama e exige que os holofotes se voltem para essa agressão gravíssima. Se pisarem no pé do outro, é porque o outro fez por merecer. 
Afora o narcisismo, existe outro impedimento para a empatia: a ignorância. Pessoas que não circulam, não possuem amigos, não se informam, não leem, enfim, pessoas que não abrem seus horizontes tornam-se preconceituosas e mantêm-se na estreiteza da sua existência. Qualquer estranho que possua hábitos diferentes será criticado em vez de respeitado. Os ignorantes têm medo do desconhecido. E afora o narcisismo e a ignorância, há o mau-caratismo daqueles que, mesmo tendo o dever de pensar no bem público, colocam seus próprios interesses acima do de todos, e aí os exemplos se empilham: políticos corruptos, empresários que só visam ao lucro sem respeitar a legislação, pessoas que “compram” vagas de emprego e de estudo que deveriam ser conquistadas através dos trâmites usuais, sem falar em atitudes prosaicas como furar fila, estacionar em vaga para deficientes, terminar namoros pelo Facebook, faltar compromissos sem avisar antes, enfim, aquelas “coisinhas” que se faz no automático sem pensar que há alguém do outro lado do balcão que irá se sentir prejudicado ou magoado. É um assunto recorrente: precisamos de mais gentileza etc. e tal. 
Para muitos, puxar uma cadeira para a moça sentar ou juntar um pacote que alguém deixou cair, basta. Sim, somos todos gentis, mas colocar-se no lugar do outro vai muito além da polidez e é o que realmente pode melhorar o mundo em que vivemos. A cada pequeno gesto diário, a cada decisão que tomamos, estamos interferindo na vida alheia. 
Logo, sejamos mais empáticos do que simpáticos. Ninguém espera que você e eu passemos a agir como heróis ou santos, apenas que tenhamos consciência de que só desenvolvendo a empatia é que se cria uma corrente de acertos e de responsabilidade – colocar-se no lugar do outro não é uma simples gentileza que se faz, é a solução para sairmos dessa barbárie disfarçada e sermos uma sociedade civilizada de fato. 

*Postado aqui, originalmente, em 14/11/2022 

NINGUÉM MAIS NAMORA AS MULHERES DEUSAS - Arnaldo Jabor

    Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo. Quem ousa namorar uma mulher desejada por todos, homens e mulheres, verdadeiras Deusas ? As mulheres não são mais para amar; nem para casar. São para "ver". Que nos prometem elas, com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones? Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados... As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem apavorados e murchos diante de tanta gostosura. Os machos estão com medo das "mulheres-liquidificador". 

O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas ou irmãs almejam ser (meu Deus!), é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "Valentina", a "Barbarela", a máquina-de-prazer sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão. Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há. Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou. Ou, então, reprodutores como o Zafir, para o Robô-Xuxa. A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: Superobjetos. Se achando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor, carinho e dinheiro. São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades. Mas, diante delas, o homem normal tem medo. Elas são "areia demais para qualquer caminhãozinho". 

Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens. Eles vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando sacos, lambendo botas, engolindo sapos, sem o antigo charme "jamesbondiano" dos anos 60. Não há mais o grande "conquistador". Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeur, babando por deusas impossíveis. Ah, que saudades dos tempos das bundinhas e peitinhos "normais" e "disponíveis"... Pois bem, com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor. Mas ainda existem mulheres de verdade. 

Mulheres que sabem se valorizar e valorizar o que tem "dentro de casa", o seu trabalho. E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir um gosto pela música, pela cultura, pela família, sem medo de parecer um "chato" ou um "cara metido a intelectual". Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas. Mulheres que adoram receber cartas, bilhetinhos (ou e-mails) românticos!! Escutar no som do carro, aquela fitinha velha dos Beegees ou um cd do Kenny G (parece meio breguinha)...mas é tão boooom namorar escutando estas musiquinhas tranquilas!!! 

Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" o papo deve ser do tipo: -"meu"... o meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil!." -"Ah "meu"..o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nunca vou precisar de plástica". E a música??? Só se for o "último sucesso (????)" dos Travessos ou "Chama-chuva..." e o "Vai serginho"???... 

Mulheres do meu Brasil Varonil!!! Não deixem que criem estereótipos!! Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza!! Curta seu corpo de acordo com sua idade, silicone é coisa de americana que não possui a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza. E se os seus namorados e maridos pedirem para vocês "malharem" e ficarem iguais à Feiticeira, fiquem... igual a feiticeira dos seriados de Tv: Façam-os sumirem da sua vida!

*Postado aqui, originalmente, em 01/01/2013

PEDRO BIAL - Mude

    

Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. 

Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros. 

Viva outros romances. Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua. Corrija a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias. Tente o novo todo dia. 

O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações. Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa. Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores. 

Vá passear em outros lugares. Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias. Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude. 

Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. 

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez. 

Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda ! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena! 

*Postado aqui, originalmente, em 10/12/2022 

O ENVELHESCENTE - Mário Prata

    

    Se você tem entre 50 e 70 anos, preste bastante atenção no que se segue. Se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. E, se já passou, confira. Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto. Esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 50 e os 70), existe a ENVELHESCÊNCIA. 

A envelhescência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim com a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. Não. Antes, a envelhescência. E, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso: — Já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? — Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos. — Os adolescentes mudam a voz. Nós, envelhescentes, também. Mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. Os adolescentes querem falar mais rápido; os envelhescentes querem falar mais lentamente. — Os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhescentes vivem a falar do passado. Bons tempos... — Os adolescentes não têm idéia do que vai acontecer com eles daqui a 20 anos. Os envelhescentes até evitam pensar nisso. — Ninguém entende os adolescentes... 

Ninguém entende os envelhescentes... Ambos são irritadiços, se enervam com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas. — Às vezes, um adolescente tem um filho: é uma coisa precoce. Às vezes, um envelhescente tem um filho: é uma coisa pós-coce. — Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós, envelhescentes, também não entendemos eles. "Ninguém me entende" é uma frase típica de envelhescente. — Quase todos os adolescentes acabam sentados na poltrona do dentista e no divã do analista. Os envelhescentes, também a contragosto, idem. — O adolescente adora usar uns tênis e uns cabelos. O envelhescente também. Sem falar nos brincos. — Ambos adoram deitar e acordar tarde. — O adolescente ama assistir a um show de um artista envelhescentes (Caetano, Chico, Mick Jagger). O envelhescente ama assistir a um show de um artista adolescente (Rita Lee). — O adolescente faz de tudo para aprender a fumar. 

O envelhescente pagaria qualquer preço para deixar o vício. — Ambos bebem escondido. — Os adolescentes fumam maconha escondido dos pais. Os envelhescentes fumam maconha escondido dos filhos. — O adolescente esnoba que dá três por dia. 

O envelhescente quando dá uma a cada três dia, está mentindo. — A adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 50 aos 70. Depois sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente. — Daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para entrar na velhice, vão dizer: — É um eterno envelhescente! Que bom.

*Postado originalmente em 12 de nov. de 2021

MILLÔR FERNANDES - 48 FRASES GENIAIS

▪ Eu também não sou um homem livre. Mas muito poucos estiveram tão perto. ▪ O homem é um animal inviável. ▪ O comunismo é uma espécie de alfaiate que quando a roupa não fica boa faz alterações no cliente. ▪ Isso sim é um congresso eficiente! Ele mesmo rouba, ele mesmo investiga e ele mesmo absolve. ▪ O acaso é uma besteira de Deus. ▪ O otimista não sabe o que o espera. ▪ Às vezes você está discutindo com um imbecil… e ele também. ▪ Eu sei sempre do que é que estou falando. Tirando isso não sei mais nada. ▪ Toda lei é boa desde que seja usada legalmente. ▪ Beber é mal. Mas é muito bom. ▪ Nunca conheci ninguém podre de rico. Mas já vi milhares de pessoas podres de podre. ▪ O Brasil está dividido entre os abertamente cínicos e os que não conseguem se conter. ▪ Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado. ▪ Nesse ritmo de incompetência as civilizações tropicais vão acabar morrendo de frio. ▪ Canalhas melhoram com o passar do tempo (ficam mais canalhas.) ▪ O ovo frito de hoje anula o galeto de amanhã. ▪ O Brasil está cada vez mais cheio de ‘pobremas’. ▪ No Brasil o otimista dorme com medo de acordar pessimista. ▪ Brasil; um filme pornô com trilha de Bossa Nova. ▪ O Brasil é realmente muito amplo e luxuoso. O serviço é que é péssimo. ▪ E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol. ▪ A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina. ▪ Essa gente que fala o tempo todo contra a corrupção está apenas cuspindo no prato em que não comeu. ▪ Mordomia é ter tudo que o dinheiro — do contribuinte — pode comprar. ▪ Além de corrupto sou cleptomaníaco. ▪ Eu não subi até aqui pra ser incorruptível. ▪ Todas as generalizações estão erradas menos esta. ▪ Não perdi a memória. Só não lembro onde botei. ▪ Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir. ▪ As mulheres são mais irritáveis porque os homens são mais irritantes. ▪ Os pássaros voam porque não têm ideologia. ▪ A alma enruga antes da pele. ▪ Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que ganha. ▪ Pessoa Física é como se chama o homem comum quando é achacado pela Receita Federal. ▪ Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem. ▪ O mal da cultura é que ela amplia gigantescamente a nossa ignorância. ▪ Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo. ▪ Relógio — aparelho movido a infinito. ▪ Ainda está pra nascer o erudito que se contenha em saber só o que sabe. ▪ Não desespere, amigo, com isso tudo. A ciência prova: até piolho tem piolho. ▪ A verdade é que, nesse mundo cheio de feministas agressivas e gays reivindicantes, eu sou um mero homem. ▪ Não há pessoa mais chata do que você mesmo. Fuja da solidão. ▪ Calúnia na internet a gente tem que espalhar logo, porque sempre é mentira. ▪ De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência. ▪ Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor. ▪ Chama-se de criança precoce aquela que nasce antes dos pais casarem. ▪ Pileque foi um matemático grego que descobriu que a terra gira. ▪ Equidistância é você estar perto de todos os lugares ao mesmo tempo. _________________ ______________ O ENVELHESCENTE Mário Prata _______________________________________________________________________________________________________________________________ _________________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair Contos e Crônicas _____________________________________________________________

A PRIMEIRA DE FLÓRIS - Edmir Saint-Clair

A música é a arte que nos permite expressar emoções, contar histórias e nos conectar uns com os outros sem palavras, de uma forma única e mágica. A música não existe no mundo físico. Não se pode capturar uma música com as mãos, não se pode possuí-la, aprisioná-la. Para aqueles que compõem, a importância vital é ainda maior. É uma mistura de paixão, desabafo, desejo, inspiração e criatividade que resulta em algo totalmente etéreo que se expressa na linguagem da alma, que só as emoções entendem. Foi assim que aquele momento especial aconteceu a esses três amigos/músicos que se conheciam e tocavam juntos há décadas. Dois deles começaram a tocar e, sem palavras, sem olhares, sem nada, começaram a executar uma música inédita que nascia naquele momento, a cada nota tocada. Uma música com alma própria, que parecia ter estado esperando a vida toda por esse momento para nascer. O terceiro músico, que afinava seu instrumento, teve uma sensibilidade igualmente única e sublime. Ele soube que tinha que ficar em silêncio, soube que precisava apenas observar e sentir. Seu silêncio era o melhor que podia doar para que aquele momento continuasse se realizando. A prova viva de que o silêncio é parte essencial da música. E assim, juntos, eles criaram algo inesquecível. Essa foi a última música que os três criaram juntos, sem saberem que seria assim. Uma música que nasceu do nada, de tudo que já tinham tocado e vivido juntos, de uma mistura de emoções e inspiração que fluíram livremente pela última vez. Um momento perfeito, coroado com a criação de uma composição que pareceu ter vindo do além para marcar aquele momento, igualmente transcendental, para sempre.

CIMENTO FRESCO - Edmir Saint-Clair

Mais um pôr do sol cinematográfico no Rio de Janeiro. Verão,todas as cores da vida no céu e na terra. Qualquer horário seria lindo após a confirmação de sua contratação para o novo emprego. Foram longos e difíceis os anos da pandemia sem trabalho. Sobrevivera, a que preço mental e existencial ele não saberia avaliar. Havia sido alto, bastante alto, e consumira forças que ele não sabia possuir. Mas, naquele fim de tarde o fio da meada estava achado, a partir dali, era só uma questão de tempo para reorganizar a vida o que, nunca, se faz de um pôr do sol para outro. Caminhando em direção ao supermercado, repara que o posto de gasolina que está sendo construído no trajeto está recebendo o primeiro piso de cimento, apenas numa pequena parte do terreno, exatamente no seu caminho. Na volta, o caminhão e os operários, que haviam cimentado o piso, já haviam partido e no cordão isolante o aviso: cimento fresco. Ele não teve dúvidas, pegou a chave no bolso e escreveu seu nome com todo o capricho na massa ainda moldável. Ficou perfeito! Nunca fizera melhor. Levantou-se e admirou sua obra. Voltou no tempo, quando a vida ainda não tinha passado e tudo ainda estava por acontecer. Se sentia assim naquele momento, escrevendo seu nome numa nova história. E como estava fantástico o pôr do sol naquela tarde. --------------------------------------------

AS FANTÁSTICAS POSSIBILIDADES DA EVOLUÇÃO HUMANA - Edmir Saint-Clair

A evolução é um espetáculo fantástico. e está aí, evidente para quem consegue vê-la em seus interessantes e inesperados detalhes. A ciência avança trazendo soluções nunca antes imaginadas. As terapias psicológicas, finalmente, alcançaram a efetividade sonhada por seus idealizadores e importantes precursores, trazendo um novo alento à atormentada mente humana. Se Freud fosse vivo estaria maravilhado com o que as terapias mentais conseguem realizar hoje em dia. O avanço foi fantástico. Terapias como EMDR, Brainspotting e outras similares conseguem interferir e modificar sinapses cerebrais e, consequentemente, comportamentos indesejados que trazem tanto sofrimento ao ser humano. A evolução trouxe, também, reflexões sobre aplicações práticas do pensamento filosófico para facilitar decisões cotidianas e para entender melhor à natureza humana. Filósofos contemporâneos como o francês Andrè Comte-Sponville, o inglês Alain de Botton e toda uma geração de pensadores estão trazendo a sabedoria milenar do pensamento humano para oferecer soluções para nossas decisões cotidianas. Reforçando essa expansão, está a WEB que nos permite obter informações sobre toda cultura humana produzida até hoje com um simples GOOGAR (pesquisar no Google) no nosso smartphone. O advento da WEB, que aumenta, a cada dia, exponencialmente a velocidade da comunicação, a troca de informações e a rapidez com que se pode dispor de qualquer conhecimento desejado, catapultou a evolução humana a um nível extraordinário e estamos vivendo o despertar de uma nova era para a humanidade. Essa evolução alcança todas as áreas; engenharia, medicina, física, química, astronomia e abrange todo conhecimento humano. A evolução humana não acontece, paulatinamente, dia a dia, como imaginamos. Ela acontece aos soluços, às vezes imperceptível até estar totalmente estabelecida. Outras vezes, vomitadas violentamente por acontecimentos, geralmente, trágicos. Só uma coisa é mais importante que o conhecimento, a imaginação. E, quanto mais conhecimento a gente tem, mais alto voa a nossa imaginação e é nesse vôo que vislumbramos coisas nunca antes possíveis. E assim, criamos um círculo virtuoso que se autoalimenta. Quanto mais o cidadão comum estiver ciente de que o seu smartphone o habilita a expandir seu conhecimento o quanto ele quiser, mais brilhante será o futuro. O conhecimento precisa entrar em moda. A curiosidade precisa ser incentivada. As pesquisas devem ser financiadas e estimuladas. Estudar tem que ter outro sentido, um sentido prazeroso de melhorar, através do conhecimento obtido, nossa qualidade de vida. Se cada um dedicar 40 minutos de seu tempo para ler com atenção qualquer texto que lhe atraia, a evolução será gigante e ainda mais rápida. Hoje, essa possibilidade está nas mãos de todos. Literalmente. – Edmir Saint-Clair Para comprar clique aqui ___________________________________--------_______________________________ Gostou? 👇 Compartilhe com seus amigos

APENAS UMA FOLHA EM BRANCO SOBRE A MESA - Edmir Saint-Clair

Na minha época de colégio não havia nada mais apavorante do que o professor pedir silêncio, logo no início da aula, e vaticinar: — Guardem os livros e cadernos e deixem apenas uma folha em branco e a caneta sobre a carteira. Aquela frase fazia gelar a alma do mais estudioso dos alunos. Imagine dos outros... O tema da prova, geralmente, era sobre os últimos pontos da matéria que o professor havia ensinado em sala. E a turma passava os 50 minutos seguintes em absoluto silêncio, todos concentrados naquele teste. A tensão na sala era enorme e, dependendo da severidade e atenção do professor da matéria, colar era o último recurso pelo alto risco que representava . Além disso, os mais aplicados geralmente se negavam a assumir o risco, e colar de quem sabia menos do que você não era vantagem nenhuma. Lembro, com saudades, de quando achávamos que aquelas provas relâmpago eram o grande problema das nossas vidas. Mal sabíamos, que dali pra frente as provas relâmpago fariam parte do nosso cotidiano. A todo momento, elas aparecem das mais variadas formas e situações e temos de estar sempre com a matéria na ponta da língua. Em algumas provas da vida, não passar pode ser desastroso. E, às vezes, passar também. E o problema desse excesso de possibilidades é que, não existe um professor para nos dizer se erramos ou não. O resultado de uma “prova da vida” pode demorar décadas para se revelar. E os resultados variam da felicidade extrema às tragédias, sem que saibamos direito onde acertamos ou erramos naquelas questões. E, muitas vezes, quando aprendemos a lição já é tarde. Como é complexo o viver de nós humanos, colocados à prova até por nós mesmos a todo instante. Quando chegamos a vida adulta, o único “professor” com quem contamos para corrigir nossas provas diárias, somos nós mesmos. Alguns felizardos descobrem as terapias, nas quais constroem ferramentas que facilitam muito essa tarefa. E, são tantos os testes pelos quais temos que passar diariamente que, por extinto de sobrevivência, preferimos nem tomar conhecimento de que estão ocorrendo a todo instante. Ao nos olharmos no espelho ao acordar, já passamos pelo primeiro teste do dia, o da autoestima, que determinará se “vamos ou não estar " de bem" com a nossa própria cara” naquela manhã. Dizem que nunca conseguimos nos ver como os outros nos veem. Ou nos achamos mais bonitos ou mais feios, mas nunca como os outros nos veem. Dependendo do dia, podemos nos reprovar de cara já de manhã cedo...E isso não é bom. Reprovado! A prova seguinte será imprevisível. E com certeza também será relâmpago. Poderá acontecer numa situação no transporte, no trabalho, na família, nos amores ou com qualquer outro louco que pode cruzar o caminho de qualquer um. E, a gente nunca mais terá aqueles 50 minutos em silêncio para pensar sobre o assunto e lembrar de tudo que aprendemos para só então decidirmos como agir. As respostas, na maioria das vezes, tem que ser na bucha. No calor dos momentos, no arfar ofegante e agoniado da vida, com a adrenalina nas alturas dificultando qualquer tentativa de racionalidade. Ainda bem que nunca ninguém disse que seria fácil. O fato é que não precisamos tirar 10 em todas as provas, todos os dias, o que precisamos é passar, nem que seja raspando. A vida é uma folha em branco em dia de teste. --------------------------------------------------------

PRESENTE DE NATAL - Edmir Saint-Clair

A bicicleta, no meio daquela grande vitrine natalina, chamou-lhe a atenção. Era vermelha e modelo BMX, parecida com a primeira bicicleta que dera ao filho. Há mais de 30 anos. A lembrança foi automática e dolorida. Na noite da véspera de Natal, perto do horário de fechar, os shoppings se tornam o maior dos infernos para quem está ali apenas para comprar um sifão da pia, que estourou. Até a loja de materiais de construção se apropriou do Papai Noel e colocou um pobre velhinho fantasiado para vender vasos sanitários e Box blindex em 12 vezes, porque é Natal. Parou de tentar gostar de Natal já tem tempo, na verdade, não suporta a data. Gosta de passá-la como se não houvesse. De tudo que já havia perdido, o contato com o filho era o que mais lhe doía. Esse seria o décimo ano, o décimo natal desde que haviam rompido. Nem uma troca de palavra sequer durante toda essa eternidade. Tentara a reaproximação de diversas maneiras, durante todos esses últimos anos, mas nunca obtivera resposta alguma. Quando saiu, o shopping já estava praticamente fechado, assim como todo o comércio do bairro. Existe apenas uma noite, no Rio de Janeiro, em que os bares restaurantes, farmácias e todo o resto do comércio fecha; na noite de natal. Voltando para casa, pelo caminho mais longo, foi vendo o tráfego ir se reduzindo, os pontos de ônibus se esvaziando e pensou que não trocaria o sifão naquela noite. Queria apenas dormir. Definitivamente, o natal não lhe faz bem. Ele sabe, já passou várias dessas meias-noites na rua, por livre vontade. Saía de casa alguns minutos antes e passava a meia-noite na rua. Apenas para ver sua própria solidão tomar conta de tudo e imperar soberana. Não tinha mais medo de encará-la. Ao contrário, tornaram-se bons companheiros. Parou na entrada da garagem e, enquanto aguardava que o porteiro lhe abrisse o portão, ouviu a voz inconfundível: - Feliz Natal pai. Vamos passar juntos? Era seu filho. Edmir Saint-Clair ------------------------------------------------------

NATAL, A ESTÓRIA DO MENININHO - Rubem Alves

Rubem Alves

Minhas netas: o Natal está chegando. Todo mundo fica agitado, é preciso comprar presentes no cartão de crédito, fazer dívidas a serem pagas no outro ano, preparar comilanças... Mas, afinal de contas, por que tanto agito? Eu acho que a maioria se agita sem saber porque. E, se soubessem, não se agitariam... Pois eu vou dizer o que penso do por que do Natal. O Natal é o dia em que se para tudo a fim de se contar e a fim de se ouvir uma estória, a mais bela e a mais simples jamais contada. Todo esse agito por causa de uma estória? É. Vocês, que gostam do Harry Potter, fiquem sabendo: a estória do Natal é uma estória do mundo dos mágicos, dos bruxos, das fadas, das varinhas de condão, dos encantamentos. As estórias têm poderes mágicos. Vocês já notaram que, quando a gente ouve uma estória que nos comove, ela entra dentro da gente, faz a gente rir, faz a gente chorar, faz a gente amar, faz a gente ficar com raiva? As estórias dos mundos dos mágicos saltam das páginas dos livros onde estão escritas, entram dentro da gente e se alojam no coração. Quando isso acontece a estória fica viva, toma conta do nosso corpo e da nossa alma, e nós passamos a ser parte dela. Pois a estória do Natal faz isso com a gente. Quando vai chegando o Natal eu fico com saudade das músicas antigas de Natal (tem de ser das antigas; as modernas não servem) e começo a folhear meus livros de arte, onde estão as pinturas do presépio. É muito simples: um menininho que nasceu em meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos... Era menininho pobre. Mas diz a estória que quando ele nasceu aconteceu uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente: as árvores se cobriram de vaga-lumes, as estrelas brilharam com um brilho mais forte, e até uns reis deixaram os seus palácios e foram ver o nenezinho. A visão do menininho os transformou: eles largaram suas coroas, jóias e mantos de veludo junto com os bichos, na estrebaria. Quem vê o menininho fica curado de perturbação. Perturbados são os adultos que, ao falar sobre Deus, imaginam um ser muito grande, muito poderoso, muito terrível, ameaçador, sempre a vigiar o que fazemos para castigar. Pois o Natal diz que isso é mentira. Porque Deus é uma criancinha. Ele está muito mais próximo de vocês do que dos adultos. E foi essa mesma criancinha que, depois de crescida, disse que para estar com Deus bastava voltar a ser criança. Se os adultos, antes de comprar presentes e preparar ceias, se lembrassem da estória, eles ficariam curados da sua doidice. Na noite do Natal que se aproxima, antes de abrir os presentes, antes de começar a comedoria, peça ao seu pai ou à sua mãe: “Por favor, conte a estória do menininho...“ E, se eles não souberem contar, peça que eles leiam esse poema sobre o Menino Jesus escrito por um poeta que queria ser menino, por nome de Alberto Caeiro. Num meio-dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele fugiu para o sol E desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros, Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias. A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as cousas. Aponta-me todas as cousas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas

CONEXÃO PERDIDA - Martha Medeiros


Para se estressar, hoje, não é preciso muito. Basta que a pessoa se hospede numa pousada que não tenha wi-fi, ou que haja uma queda de energia que deixe seu computador paralisado: que desespero ficar sem o Instagram, o Face, o Twitter, o YouTube, o Google. É chato, eu sei. Mas há uma conexão muito mais séria que está sendo perdida sem que ninguém se importe: a conexão entre causa e consequência, que exige apenas o bom funcionamento dos fios que interligam os neurônios. Quem viu as imagens do rojão que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade durante um protesto no Rio reparou que ele não estava cercado por muita gente, havia um clarão ao seu redor, o que resultou num comentário paralelo à comoção geral: alguns consideraram a tragédia um azarão. Não era para acertar ninguém, foi uma fatalidade. Que azar, o quê. Não foi azar de quem soltou o artefato, nem azar de quem estava no caminho. Não houve azar ou sorte. Houve, mais uma vez, a falta absoluta de conexão entre causa e consequência, uma relação lógica que entrou em desuso. Quem lida com material explosivo no meio da rua (ou dentro de um estádio, como aconteceu no ano passado num jogo do Corinthians, na Bolívia) tem que estar ciente de que pode ferir e até matar outros. Quem dirige feito um insano na estrada tem que ter noção de que pode provocar um acidente fatal. Quem depreda um ônibus tem que lembrar que aquele é o mesmo ônibus que o levaria ao emprego no dia seguinte. Quem se descontrola com gastos estapafúrdios tem que responder pela falta de verba para o essencial. Quem pensa que está fazendo economia ao usar material de baixa qualidade em obras de infraestrutura tem que considerar que poderá haver danos, atrasos e acidentes de trabalho. Quem se envolve com corrupção tem que saber que é um ladrão como qualquer outro, não importa se usa gravata e tem curso superior. Quem não atende com eficiência vê sumir a freguesia. Quem solta boatos obstrui a comunicação. Quem mente perde a credibilidade. Quem não investe não avança. Quem só cultiva aliados em vez de amigos fica sozinho. Quem não lê não pensa direito. Quem não pergunta tateia na ignorância. Quem mima em vez de educar lega ao mundo seres prepotentes. Quem não entendeu que gentileza gera gentileza acabará sentindo na pele que grosseria gera grosseria. Mas, em vez de manter conectada essa corrente óbvia entre causa e consequência, o que vemos são políticos governando o hoje como se não houvesse amanhã, manifestantes confundindo consciência com delinquência, motoristas desrespeitando as leis para chegar antes, homens e mulheres procurando resolver seus problemas com imediatismo, sem levar em conta as necessidades e sentimentos dos outros. ---------------------------------------------------------------

DENTRO DE UM ABRAÇO - Martha Medeiros

Martha Medeiros

Onde você gostaria de estar agora, nesse exato momento? Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estréia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível. Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista. E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo? Meu palpite: dentro de um abraço . Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve. Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso. O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz humana nenhuma se faz necessária, está tudo dito. Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama? Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo. Mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. ...recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste. -------------------------------------------------------------------

LUIZ FERNANDO VERISSIMO – Neparlepá

A frase era usada como um protesto contra os tempos em que tudo é dito e ouvido por todas as idades. Ne parle pas devant la petite foram as primeiras palavras que a Norinha aprendeu em francês. Ela tinha quatro anos e já sabia algumas palavras em inglês, que ouvia na TV, como yes e lets go., mas as primeiras palavras em francês foram aquelas que sua mãe repetia muito em conversas com seu pai: ne parle pas devant la petite. Norinha usava seu extenso vocabulário para falar com suas bonecas. “Yes” e “let’s go” e “ne parle pas devant la petite”. E uma vez divertiu um grupo de pessoas que visitavam seus pais parando no meio da sala e gritando: – Ne parle pas devant la petite! – Onde foi que você aprendeu isso, menina?! Todos acharam muita graça. Menos a mãe da Norinha, que ficou preocupada. A Norinha ouvia tudo. Tinha curiosidade sobre tudo. Em pouco tempos estaria perguntando o que significava aquele neparlepá que sua mãe tanto dizia. Norinha cresceu, aprendeu que “ne parle pas devant la petite” queria dizer “não fale na frente da criança” e nem precisou perguntar pra mãe o que não era para ela ouvir nas discussões do casal, ou quando a conversa ficava só para adultos. O casamento deles estava se dissolvendo, eles queriam poupar a filha disso. E coisas como sexo e as maldades do mundo não eram para os ouvidos de uma criança. – Vocês esperavam mesmo que eu não fosse notar que o casamento de vocês estava em crise? E que eu acabaria sabendo tudo sobre o que vocês tentavam esconder, não falando na frente da criança? – Naquele tempo era assim, minha filha. Hoje... – Hoje? – disse Norinha. – Eu vou lhe contar como é hoje. E Norinha contou que, quase que por nostalgia, usara a frase da mãe na sua casa. Ela e o marido estavam comentando os excessos de um programa de televisão na presença dos meninos e ela dissera “ne parle pas devant les petits”. E Julio, o marido, dissera: – Ahn? – Ne parle pas devant les petits. É uma frase em francês que quer dizer... – Eu sei o que quer dizer. Mas ninguém mais usa essa frase, Norinha. – Eu sei. É que... – Há uns 40 anos essa frase não é usada. Nem na França. – Eu só acho que certas coisas o Marquinhos e o Lucas ainda não estão em idade de ouvir. – Eles ouvem na rua. Ouvem na escola. Ouvem em toda parte. É só ligarem a televisão que ouvem tudo. – Mas não ouvem dos pais deles. – E você acha isso certo, ou acha uma hipocrisia? E Norminha disse para a mãe que concordava com Julio, que era uma hipocrisia. Mas que mesmo assim começara a usar a frase, quase como um protesto contra os tempos em que tudo é dito e tudo é ouvido por todas as idades. Só que a frase tem tido um efeito inesperado. Quando ela pede para o marido “ne parle pas devant les petits”, Lucas, o menor, diz: – Ih... Olha o neparlepá. Lá vem sacanagem. ---------------------------------------------------------

UM POUCO DE SILÊNCIO - Lya Luft

Lya Luft

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade. Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam. Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência. O normal é ser atualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho. Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsteres que se alimentam da sua própria agitação. Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma. Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja. Além do desgosto pela solidão , temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão : quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de atividades frenéticas está com algum problema. O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal-resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo. Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projetos e sonhos? No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distração. O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras. Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas. Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse: — Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar. E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores. Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos. ________________________________________________________________________________________________________________

O PERFUME DO RIO - Heloisa Seixas

Eu estava na praia quando caiu o temporal. Era um meio de tarde, não mais de quatro horas, e lembro-me de que estava deitada de frente para o mar do Leblon, lendo. De repente, senti uma chicotada nas costas. A areia me fustigou com tal violência que a revista me foi arrancada das mãos. Tapei os olhos, esperando que a ventania passasse. Mas não passou. Depois de me levantar com dificuldade, enquanto o vento me empurrava em direção ao mar, recolhi minhas coisas como pude e virei-me em direção à rua – justamente de onde vinha o vento. Enfrentei-o, caminhando quase agachada e ouvindo a algazarra dos banhistas que, sem exceção, corriam para se abrigar. Num brevíssimo intervalo entre duas lufadas, olhei para cima. O céu, por trás dos prédios, era de um negro profundo, parecia saído de um filme de ficção científica. Um raio e um trovão simultâneos me fizeram baixar a vista e apertar o passo. Não tinha ainda alcançado o outro lado da Delfim Moreira quando a chuva caiu. Uma chuva desalmada, de instintos assassinos, que me ensopou em segundos. Corri para uma das ruas transversais, procurando abrigo. A rua estava deserta, ninguém à vista. Nem qualquer lugar que pudesse me servir de refúgio. No Rio, os prédios se cercaram todos de grades de ferro e suas marquises ficaram para além das lanças pontiagudas, em território proibido. Já não servem a ninguém em dia de chuva. Eu estava a poucos quarteirões de casa, mas água e vento me batiam com tamanha violência que eu mal podia caminhar. Não havia alternativa a não ser parar em algum lugar e esperar passar a tormenta. Lembrei-me, então, do pequeno largo, um recuo, do lado direito da rua, que imaginei abrigado, senão da chuva, pelo menos da força do vento. Ainda com dificuldade e sentindo a água me açoitar as costas nuas, caminhei até lá. O largo, cercado de prédios baixos e amendoeiras, me acolheu. De fato, ali ventava menos. Tremendo de frio e susto, esperei que a chuva passasse, encostada ao muro de um prédio antigo, cujas pedras ainda emanavam o calor da tarde. Abraçada à minha bolsa de lona, tão molhada quanto eu, fiquei ali, pensando em toda sorte de histórias sobre raios fulminantes. Foram muitos minutos até que a tormenta recuasse. Mas, quando isso aconteceu, foi como se o mundo emergisse de uma paixão avassaladora e respirasse, salvo. Fechei os olhos. E foi então que o cheiro das amendoeiras me invadiu. Um cheiro ácido, verde, úmido – a alma das árvores delas se desprendendo, leve e lavada. Um aroma que a chuva acentuara, sem dúvida, mas que eu reconheci porque já o sentira antes, muitas vezes, sem que disso me desse conta. Agora ele estava apenas mais forte, mas a verdade é que sempre estivera lá. O cheiro das amendoeiras. É esse o perfume do Rio. _____________________________________

ENTENDENDO O OUTRO - Danuza Leão

Danuza Leão

Nada melhor do que não ter nenhuma responsabilidade pessoal e ter a quem culpar por tudo que ocorre de ruim. Depois que a psicanálise ficou ao alcance de todos, os filhos deitaram e rolaram nos divãs para falar mal do pai e da mãe; sempre com razão, aliás, e sem o menor resultado, aliás também. Quem são os culpados dos sucessivos casamentos que não deram certo? Os pais, é claro. Ou porque não tiveram a coragem de se separar, mesmo vivendo mal, ou porque se separaram, o que pode ter sido visto como modelo a ser seguido. Se a mãe foi uma mulher resignada, dominada pelo marido, que não lutou por sua independência nem procurou o seu caminho, a filha pode se tornar uma adulta igual ou virar o oposto: uma vadia que troca de homem como se troca de camisa. Se essas filhas tiveram um pai que era um marido exemplar, podem passar a vida perseguindo a imagem paterna ou, ao contrário, um grande cafajeste, para serem diferentes da mãe. Culpa de quem? Nem é preciso dizer. Já se o pai foi um derrotado que passou a vida infeliz no mesmo emprego medíocre para dar segurança à família, os filhos podem no futuro ser ou exatamente iguais ou fazer qualquer coisa para ganhar um dinheiro fácil, e terminar até na cadeia. Em qualquer dos casos a culpa foi, é e será, sempre, dos pais. Já virou clichê o filho que passa a vida se lamuriando porque a mãe não contava histórias na hora de dormir, e cujo pai nunca perguntava pelas notas do colégio quando chegava do trabalho, e ai daqueles que saíam para uma festa quando os filhos tinham uma febrinha. Esses passam a vida sofrendo, e sem razão, pois nada melhor do que não ter nenhuma responsabilidade pessoal e ter a quem culpar por tudo que acontece de ruim. Mas nunca nenhum deles parou para pensar como foi a vida desses pais quando crianças. Como foi a infância deles? Feliz, traumática, triste, infeliz? Terão eles recebido carinho dos seus próprios pais? Os analistas não costumam abordar o assunto. Houve um tempo -algumas gerações atrás- em que as crianças, quando faziam uma coisa errada, apanhavam. Quando pequenas levavam palmadas; já maiores, surra de cinto. Hoje, ai dos pais que perdem a cabeça e cobram boas notas do colégio ou levantam a voz. O caminho é só um: arranjar um psicólogo que as crianças frequentarão três vezes por semana, além da reunião de família semanal, com o pai, a mãe, a atual mulher do pai e o atual marido da mãe. Reuniões desse tipo não costumam acabar bem, claro. As crianças modernas não estão interessadas em entender as razões que levaram suas mães e seus pais a serem menos amorosos ou carinhosos; elas nunca pensaram que a mãe, com 30 anos, mesmo adorando os filhos, às vezes sufocava quando via um homem atraente, e que quando assistia a um filme romântico voltava para casa querendo mandar tudo para o espaço e ir para algum lugar no mundo onde encontrasse um homem que a olhasse como uma mulher ainda desejada. Essa mãe não conseguia nem ao menos entender o que se passava dentro dela; ficava tudo muito confuso, e naqueles tempos não havia analistas para explicar o que estava acontecendo (e se já existissem e explicassem, também não resolveria). E qual o pai que um dia, mesmo amando apaixonadamente seus filhos, não pensou que talvez ainda fosse muito jovem para tantas responsabilidades, e que teria sido melhor se tivesse se casado um pouco mais tarde? Ninguém quer compreender as razões do outro, e ninguém está interessado em saber se seus pais tiveram, dos seus pais e mães, o que gostariam de ter tido. Porque os pais e mães de nossos pais e mães também tiveram as suas razões, e o mundo foi, é e será assim para todo o sempre -e amém. ------------------------------------------------------------------------------

QUEM NAMORA AGRADA A DEUS - Arthur da Távola

Namorar é a forma bonita de viver um amor. Não namora quem cobra nem quem desconfia. Namora, quem lê nos olhos e sente no coração as vontades saborosas do outro. Namora, quem se embeleza em estado de amor. Namora, quem suspira, quem não sabe esperar mas espera, quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão. Namora, quem ri por bobagem, quem sente frios e calores nas horas menos recomendáveis. Não namora quem ofende, quem transforma a relação num inferno, ainda que por amor. Amor às vezes entorta, sabia? E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim. Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro apenas para a glória do próprio eu. Não namora quem busca a compreensão para a sua parte ruim. O invejoso não namora. Tampouco o violento! Namorados que se prezam têm a sua música. E não temem se derreter quando ela toca. Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem. Namorados que se prezam gostam de beijo , suspiro, morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no mesmo copo. Apreciam ternurinhas que matam de vergonha fora do namoro ou lhes parecem ridículas nos outros. Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada. Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados, os de língua, beijo na testa, no seio, na penugem, beijo livre como o pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado. Sem medo nem preconceito. Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás da orelha, no lugar que só ele ou ela conhece. Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo que sempre viu e jamais reparou. Flores, árvores, a santidade, o perdão, Deus, tudo fica mais fácil para quem de verdade sabe o que é namorar. Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor. Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e facilidade tudo o que fora do namoro é complicado. Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar" ; e quem é capaz de perder tempo, muito tempo, com a mais útil das inutilidades e pensar no ser amado, degustar cada momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias com uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de flores astrais. Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias, quem aguarda com aflição o telefone tocar e dá um salto para atendê-lo antes mesmo do primeiro "trim". Namora, quem namora, quem à toa chora, quem rememora, quem comemora datas que o outro esqueceu. Namora, quem é bom, quem gosta da vida, de nuvem, de rio gelado e parque de diversões. Namora, quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de amor e quem morre vivendo de amar. -------------------------- Nosso canal no Youtube: Vídeos muito interessantes para pessoas mais interessantes ainda.

O AMOR, UM ANSEIO - Martha Medeiros

Martha Medeiros

Recebi de presente de uma querida amiga um livrinho com pensamentos de Carl Jung sobre o amor, este tema fascinante que nunca se esgota. Pai da psicologia analítica, Jung faz várias considerações, até que em certo momento da leitura me deparei com a seguinte frase: “O amor da mulher não é um sentimento — isso só ocorre no homem — mas um anseio de vida, que às vezes é assustadoramente não sentimental e pode até forçar seu autossacrifício.” Peraí. Isso é sério. O que eu entendi dessa afirmação é que o homem é o único ser capaz de sentir um amor genuíno e desinteressado. O homem só atende ao seu mais puro sentimento — e se esse sentimento não existir, ele não compactua com uma invenção que o substitua. O homem não cria um amor que lhe sirva. Já para a mulher o amor não é uma reação emocional, é muito mais que isso: aliado a esse sentimento latente, existe um projeto de vida extremamente racional que precisa ser levado a cabo para que ela concretize seu ideal de felicidade. O amor é uma ponte que a levará a outras realizações mais profundas, o amor é um condutor que a fará chegar a um estado de plenitude e que envolve a satisfação de outras necessidades que não apenas as de caráter romântico. Ou seja, romântico mesmo é o homem. A mulher necessita encontrar seu lugar no mundo, a mulher precisa completar sua missão (ter filhos, geralmente a mais prioritária), a mulher deseja responder seus questionamentos internos, a mulher se sente impelida a formatar um esquema de vida que seja inteiro e não manco, a mulher possui uma voracidade que a faz querer conquistar tudo o que idealizou. O amor é um caminho para a realização desse projeto que é bem mais audacioso e ambicioso do que simplesmente amar por amar. O amor pode nem ser amor de verdade, mas é através de algum amor, seja ele de que tipo for, que ela confirmará sua condição de mulher. O homem já nasce confirmado em sua condição. Será isso mesmo ou estou viajando na interpretação que fiz? Se eu estiver certa, então talvez o verdadeiro amor seja o amor da maturidade, o amor que vem depois de a mulher já ter atingido seu anseio original, o amor que surge da serenidade, depois de tanto ter se empenhado, o amor que vem quando não há mais perseguição a nada: o amor maduro e íntegro da mulher pode enfim se conectar com o amor maduro e íntegro que o homem sempre sentiu. Os amores puros de um e de outro finalmente se encaixariam — o amor real dele e o amor dela desprovido de ansiedades secretas. Enfim, juntos? Indo mais longe, talvez isso explique por que são as mulheres as que mais pedem o divórcio: já atingiram seus propósitos e procuram agora vivenciar um amor que seja unicamente sentimental, sem cota de sacrifício, enquanto que o homem só pede o divórcio quando se apaixona por outra mulher, pois ele sempre foi movido pelo amor desde o começo, deixando as racionalizações fora do âmbito do coração. Jung, me perdoe se delirei a partir de uma única frase sua, mas me permita realizar esse meu anseio de pensar o amor, além de vivenciá-lo. Que jeito, sou mulher. _____________________________________________________________________________________________________________________________________ Subscribe in a reader ZIGMUNT BAUMAN: Lojas são alívio a curto prazo PERMISSÃO PARA SER INFELIZ - Eliane Brum com a psicóloga Rita de Cássia de Araújo Almeida NILTON BONDER - Olho que vê A PAIXÃO PODE DURAR DÉCADAS - Suzana Herculano-Houzel EU E EU - Marco Antonio Rodrigues CRISE DE PÂNICO! ARNALDO JABOR – Relacionamentos _______________ Gostou? Compartilhe, o Cult agradece. ________________________________________________________________________________________________________________________ A Casa Encantada Contos do Leblon Edmir Saint-Clair Contos e Crônicas _____________________________________________________________

A VIDA COMO ELA PODE SER - Cláudia Penteado

“Aqui se passa fome, aqui se odeia, aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.” (Adélia Prado) As festas de fim de ano – puxa, que bom que acabaram – sempre me fazem refletir a respeito das escolhas que fazemos diariamente. Até a minha adolescência, Natal e réveillon foram momentos de confraternização familiar sem precedentes, com festas, viagens e bons encontros. A separação dos meus pais transformou essa época do ano em algo bem próximo do inferno, quando escolhas tinham que ser feitas e o resultado quase sempre era um bocado de dor de cabeça. Com o tempo, as escolhas de fim de ano passaram a recair invariavelmente em estar o mais longe possível de qualquer um dos “lados” da família que eu agora só “administrava”, elegendo novos destinos junto a novas famílias – as dos namorados. Nelas não havia dúvidas, divisões, lembranças saudosistas, comparações, culpa ou cobrança. Apenas a leve sensação do desprendimento e o reconfortante não-pertencimento. Faz parte do crescimento eleger quem entra para a nossa família – a escolhida, aquela que parece não carregar consigo problemas ou ressentimentos. O que fazemos, na realidade, é ir atrás de escolhas que nos afastem do sofrimento. Caímos no velho clichê de que toda família é problema e não perdemos tempo no resgate daquilo que para nós já é visto como irresgatável. Batalha perdida sem sequer entrar em campo. Como tudo na vida, família dá mesmo trabalho, e como já trabalhamos muito para ganhar nosso sustento e tentar levar uma existência minimamente digna, tudo o que não queremos é ter mais trabalho nas outras frentes das nossas vidas. Hoje me vejo num barco parecido: novas escolhas feitas recaem em novas famílias e fito os olhinhos questionadores da minha filha de 10 anos que – a partir desse ano – passará suas festas de fim de ano revezando entre papai e mamãe. Andei, andei, e estacionei no mesmo lugar? Não. O que eu desejo para ela, é que não se sinta culpada porque não passou Natal com a mamãe, ou vai passar o réveillon longe do papai. Em primeiro lugar, isso depende de um pacto bem amarrado de amizade e admiração entre os pais dela – claro. O que inclusive permitiu que ela pudesse passar muitos Natais com papai e mamãe juntos, mesmo depois de separados. Sim, é possível escrever uma história diferente da minha – mas dá muito trabalho. A partir de agora, o que eu quero é que embora não esteja com papai e mamãe juntos nas festas de fim de ano, ela tenha a oportunidade de escolher sem a sensação de Sofia no clássico de William Styron. Cabe aos adultos – que, afinal de contas, a colocamos nesse lugar – não lhe causar sofrimento desnecessário com nossas carências e as próprias culpas não resolvidas. Mas mais do que isso, o que eu gostaria de mostrar para ela é que, sim, escolher é crescer. Escolher fará parte de cada momento da sua vida, para sempre. E que nem sempre escolher o mais fácil a fará mais feliz. A frase é batida, mas a vida não tem mesmo ensaio. Ou seja, “já é”, como dizem hoje em dia. Uma professora de literatura, Elizabeth Duque Estrada, vai ainda mais longe e costuma dizer que vivemos nossas muitas reencarnações em vida. Diante disso, escolher o difícil nos ensina a construir bases fortes, a ganhar musculatura. Desistir da família e correr para a casa de um namorado ou de uma amiga qualquer pode parecer um alívio, em alguns momentos, mas nos tira a chance de amadurecer e investir energia e emoções em relações que, sim, podem valer à pena. Sim, família não é aquela que aparece nos nossos documentos e registros oficiais: são as relações que efetivamente cultivamos, nas quais investimos, nas quais escolhemos colocar energia. Mas a família dos registros oficiais também não é só problema. Hoje penso duas vezes antes de desistir de investir em relações humanas – sejam elas quais forem – porque encaro de frente as muitas fraquezas que eu mesma tenho, e as muitas e muitas vezes em que precisei que as pessoas que eu amo não desistissem de mim. Claro que vou me esforçar par

RACISMO AQUI NÃO!

RACISMO AQUI NÃO!