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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO(2) - Arnaldo Jabor

Por Cult Carioca · novembro 06, 2016
Arnaldo Jabor

Falem por alto!... - minha mãe dizia, quando eu entrava na pequena sala de visitas, com poltronas verdes e um quadro de rosas na parede. Naquela época, o tempo era lento, as ruas silenciosas, as tardes vazias e as mulheres casadas se visitavam, em busca de alguma verdade que explicasse suas vidas mas, quando se reuniam na salinha de minha mãe, ficavam tensas e grandes verdades morriam mudas. Por isso, as conversas viravam sempre para o mundo "lá fora", pois a vida era dividida entre o que se passava na rua e 'dentro'

das casas, onde os filhos se criavam, as empregadas cozinhavam e os maridos chegavam. Mas não havia 'fora' nem 'dentro'. Só havia o radio com tristes novelas, havia os telefones pretos e as geladeiras brancas, havia os sofás de cetim e as almofadas de crochê, mas elas se sentiam vazias de alguma coisa que ignoravam, sentiam-se barradas de um baile que devia existir em algum lugar, sonhavam com filmes americanos, os beijos ardentes, os finais felizes, os galãs tão diferentes dos maridos deprimidos que chegavam do escritório.

Minha mãe tinha uma voz especial para as visitas, frases escolhidas, ponteada de sorrisos, ostentando uma felicidade tranquila que eu não via no dia a dia. Era a mesma voz que usava para falar ao telefone com as cunhadas tão odiadas por ela - uma voz estudada, afetuosa, que sumia e dava lugar a um rosto rancoroso quando desligava. Por que ela muda a voz? - eu pensava. As visitas também falavam com o tom discreto e calculado de senhoras casadas, como se temessem alguma coisa - o que, meu Deus?

- a perda da dignidade de esposas honestas? Aquela tristeza no ar me intrigava. Tristeza nas lâmpadas fracas, nos rostos das mulheres de minha família. Quando eu entrava na sala, minha mãe avisava: "Falem por alto!" - era a senha para não falarem coisas que eu não podia ouvir. Então, o mundo se encantava, aquela salinha de visitas virava um tesouro de mistérios. Elas tinham um segredo que me era vedado, ocultado. E tudo ficava interessantíssimo pois, para além daquela salinha feia, havia algum acontecimento extraordinário, talvez até um crime, que não me revelavam - por quê?

Eu me encolhia no chão entre as cadeiras, tentando pescar algum indício em suas falas que não eram para crianças como eu, ali, me contorcendo entre pernas cruzadas e xicaras de café. "Falem por alto...!" Aí, a conversa mudava para frases cortadas ao meio, gestos e mimicas cifradas: "Ah..Fulana, vocês sabem quem é, aquela, aquela... Pois o marido não viajou, não. Largou ela por uma já sabem...uma (quem, quem?) uma da 'vida' , 'femme du bas fond' (falavam francês na época)...

E a filha? Será que ela ainda é... acho que ela já perdeu 'aquilo' ...Ihh, já furou há muito tempo..." Os risos vinham repassados de um pudor discreto de senhoras. "Perdeu o quê?", pensava eu no chão. Eu tinha que descobrir. "E Sicrana? Sabem quem é...não? Ah, essa costura pra fora!..." O gesto de minha tia foi para fora da janela, do outro lado da rua. "Lá...lá..." - apontavam. Mas, "lá" era a casa de dona Nina, mãe do meu amigo Caveirinha, que não era costureira - pensei, alarmado.

"É só olhar: toalhinhas higiênicas com sangue no varal, calcinhas na janela, novela alta, roupa berrante para uma viúva, maiô de duas peças na praia?" "Eu me benzo quando passo em frente!" , disse a prima pobre, humilde, ouvida com pouco afeto, pois temiam que pedisse alguma ajuda por sua miséria de tamancos e unhas sujas. Havia nas pernas apertadas, nas saias discretas, uma solidão que não conseguiam ocultar, mesmo nas conversas íntimas, troca de cochichos e maledicências.

Escondiam-me fatos, mas eu sentia a presença de algo que não estava ali, que algo se passava entre elas, que elas ignoravam. Olhei pela janela e vi d. Nina numa cadeira na varanda, alta e muito branca. Devia estar esperando o filho, meu amigo Caveirinha. Senti que ali estava a resposta para a conversa "por alto" e comecei a sentir medo e desejo de ir a casa de d. Nina. Para disfarçar, aumentei minha criancice, me arr

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