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A INSUSTENTÁVEL(?) DIFERENÇA DO SER - Cláudia Penteado

Por Cult Carioca · julho 30, 2017
A INSUSTENTÁVEL(?) DIFERENÇA DO SER - Cláudia Penteado

" As melhores coisas e as melhores pessoas nascem da diferença" . Robert Frost Outro dia reencontrei uma amiga que não via faz muito tempo. Não foi um reencontro comum. Foi o reencontro com alguém que eu tinha a sensação de ter perdido de vista para sempre. Bruna era uma dessas pessoas cheias de personalidade. Jornalista, meio hippie, cabelão cacheado e sempre despenteado de um jeito charmoso, quase nada de maquiagem. Linda, divertida, fazia ioga e corria na lagoa.

Um belo dia, conheceu Rodrigo, um publicitário gente boa, daqueles que andam em carros último tipo, usam ternos Armani e relógios Bulgari. Enquanto namoravam, eu cada vez menos cruzava com ela pelas ruas da Gávea, alegremente voltando da ioga em sua bike, indo tomar um chope despretensioso no baixo ou alugando algum filme de arte na locadora. Um par de anos depois, mudou-se com Rodrigo para o Leblon. Casaram na Itália, eu soube por um amigo em comum.

Bruna foi se transformando aos poucos: alisou os cabelos, adotou a tal da progressiva – fenômeno contemporâneo como o botox e o silicone. Seu visual mudou para algo entre o chique e o sensual. Passou a dirigir um desses utilitários. Preto e blindado. A bike, ela esqueceu no antigo prédio e volta e meia eu a avistava sendo conduzida pelo velho porteiro, seu Abelardo. Abandonou a ioga e matriculou-se numa academia de ginástica. Ganhou músculos, ficou sarada, passou a usar salto, roupas justas.

Fazia um estilo gostosona, sempre bem maquiada e os cabelos impecavelmente arrumados. Nunca me pareceu esfuziantemente feliz, nas poucas vezes que a encontrei para um café rápido pelo Leblon ou no bate-papo do computador. Comentava que a vida andava corrida, que ela pensava em ter um filho mas que o marido era muito ocupado e que ela andava viajando muito acompanhando-o em compromissos profissionais. Para mim, é como se Bruna realmente não fosse mais a mesma pessoa.

Por isso, reencontrá-la outro dia foi tão significativo. Avistei, como que num passe de mágica, a velha amiga de cabelos cacheados, colchão de ioga nas costas, passeando pelo bairro onde tantas vezes nos esbarramos. O olhar tinha o brilho dos velhos tempos, e tomei um baita susto, parecia ter entrado numa máquina do tempo. “Me separei”, anunciou. “Estou namorando o Sergio, aquele cara que você me apresentou uma vez no Baixo Gávea, lembra? Ele agora dá aula de ioga na academia onde pratico”, disse.

Lembrei do Sergio e revivi por um instante aquela noite no Baixo Gávea, uns 10 anos antes. Bruna estava começando a namorar Rodrigo, encantada com a novidade, olhando para o celular de cinco em cinco minutos, e mal deu atenção ao Sergio, meu colega de grandes olhos verdes do grupo de estudo de filosofia. Quem acabou flertando com ele fui eu, e mantivemos um romance por alguns meses, até que ele foi passar um tempo na Índia e acabamos nos desencontrando.

Me casei, ele também…mas pelo visto separou e de alguma forma foi parar nos braços da minha velha amiga. Foi bom reconhecê-la e de alguma forma perceber que ela havia tomado coragem para fazer as pazes com quem realmente é. Há relações que nos levam para lugares estranhos e nos fazem procurar um jeito de “encaixar” naquilo que consideramos ideal para as nossas vidas ou para quem nos rodeia. Bruna queria se encaixar no jeito que ela provavelmente acreditava ser o ideal de seu homem.

Talvez não lhe passasse pela cabeça que Rodrigo tenha sido atraído pela diferença. Também ele tentou “agradar” a mulher e matriculou-se na ioga, mas não conseguiu manter o ritmo das aulas, em sua vida atribulada. Quase arrumou uma hérnia de disco. Era mais fácil ir para a academia no fim do dia e dar uma corrida na esteira. E a vida foi passando. A medida que Bruna se transformava, aos poucos, na boneca inflável que acreditava ser o ideal de Bruno, ele perdia de vista, meio desconsertado, o sorriso maroto e a alegria de viver da pessoa com quem se casara. Rodrigo foi sim capaz de amar a diferença na mulher, mas acabou entrando no frustrante jogo da si

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