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A VERGONHA PODE SER O INÍCIO DA SABEDORIA - Arnaldo Jabor

Por Cult Carioca · maio 19, 2017
Arnaldo Jabor

O Brasil mudou muito dentro de nós. Não falo de uma descrição figurativa da história recente. Falo de bobagens, detritos, coloquialismos que nos mudaram. Falo de nossa vida interior de 1964 para cá. Houve uma mutação mental silenciosa sob os acontecimentos. O que mudou nas cabeças? Antes de 64, o ritmo das coisas tinha a linearidade de um filme acadêmico. Para nós, jovens de esquerda, o país era ameaçado por uma vaga "direita" que não romperia o contrato imaginário de uma luta "cordial".

Falávamos muito em "luta de classes", mas não conhecíamos ainda a violência da "reação". Acreditávamos em um Papai Noel histórico. Dizíamos: "Nosso Exército é democrático porque é de classe média e a burguesia nacional é progressista. Não trairão Jango". Nada descreve o choque da aparição súbita de Castello Branco na capa da "Manchete". Nunca ouvíramos falar daquele homenzinho fardado, feio como um ET. De repente, tivemos a certeza de que tínhamos "subestimado o inimigo".

Rompeu-se em 64 o sonho de que as ideias mudavam o mundo. Não tínhamos mais o "futuro harmônico" de um socialismo imaginário. Um general baixinho mandava em todos, acima das "sagradas massas". Grande trauma. Aprendizado: o coloquial, a ignorância, o acaso eram mais fortes que nossos generosos desejos. Fizemos, claro, um diagnóstico "histórico": "64 foi um golpe dado pelo conservadorismo das elites diante das massas surgidas na industrialização, com o apoio do imperialismo".

Tudo bem - mas foi muito mais um golpe dado pela classe média apavorada, com medo de sua ala "de esquerda". A esquerda - toda de classe média (não havia "operários" no Brasil antes de surgir a alegoria de Lula) - era o braço generoso e crítico dessa mesma classe média. Descobrimos que não havia "massas proletárias". Achávamos que íamos lutar contra os ianques e fomos vencidos por nossas tias. A adesão a 64 foi impressionante. Nossos pais, primos, avós, todo mundo era "de direita".

A esquerda janguista foi coberta de ridículo. Acabou ali a ideia de que o país era um projeto positivo que evoluía - Brasília, bossa nova, reformas, tudo parou ali. O pensamento político que flutuava num processo feliz passou a sofrer a necessidade de "revisão". Perdêramos a inocência. Surgiu a esquerda autocrítica que viria a fundar o PSDB, duas décadas depois. A ela se opôs, desde então, a esquerda ortodoxa, que não renegou a antiga fé e foi desembarcar com seus dogmas no PT na mesma época.

Em 66, começaram as passeatas pela liberdade. Havia um espaço de transgressão possível, com uma vaga permissão de Castello e até de Costa e Silva num populismo meio bonachão. Achávamos que a liberdade resolveria tudo e, como a luta contra a ditadura era seríssima, nos sentimos cheios de razão, legitimados como vítimas nobres. A luta pela democracia nos fez cegos para as dificuldades de um país complexo, que conheceríamos depois. Toda a resistência popular e cultural das manifestações de rua acabou com a decretação do Ato Institucional nº 5, coloquial também ( "Fecha o Congresso, Arthur, fecha!", aconselhou d.

Iolanda). Em 68, um raio partiu a vida. A consciência nacional conheceu a morte. Não falo só da tortura ou da violência. Falo também da morte na alma, de todas as ilusões. Quem não viveu de 69 a 72 não sabe o que é loucura, piração de consciências. Acabou a ideia de "povo unido", e começou a época dos francos atiradores, dos guerrilheiros suicidas, soltos em paisagens vazias. Saímos da ilusão para o desespero. De um lado, a morte heroica na guerrilha, do outro o "desbunde"

místico na cultura arrasando as melhores cabeças no LSD e no misticismo - e tudo cercado pelo show da grana multinacional, criando o "milagre" brasileiro, jorrando yuppies endinheirados e dando ao povão a ideia de um grande progresso, feito de Transamazônica, Itaipu e porrada. Nem reforma agrária nem educação - Copa de 70 e estatismo retumbante, financiado pela onda bancária internacional. Mas, em 72, começa a crise do petróleo, provocando a ideia de "abertura" políti

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