
Utilizar técnicas de atenção plena para aceitar o presente e para vivê-lo de forma intensa pode ajudar a controlar o stress e modificar comportamentos inadequados, harmonizando pensamentos e sentimentos Depois da segunda caneca de cerveja, minha concentração acabou. Bebida e música alta atrapalhavam qualquer tentativa de ouvir minha própria respiração. Debruçado sobre a mesa, eu falava ininterruptamente com a pessoa à minha frente. Minhas palavras pareciam um pouco deslocadas em meio à bagunça.
Não importa, eu precisava falar: naquele mesmo dia eu havia meditado por sete horas inteiras. Até então, nunca havia me entregado a essa prática –- pelo menos não seriamente. E me sentia como se tivesse carregado as baterias. Pela manhã, havia participado da atividade no grande salão de conferências do Centro de Psicoterapia Integrativa (CIP) de Munique, com 18 noviços – 17 mulheres e um homem. Meditação fazia parte de um curso de extensão para terapeutas e médicos interessados em aprender fundamentos da atenção plena, - pois quem pretende utilizar a prática com seus pacientes deve primeiro exercitá-la.
No meio da sala, em volta de um girassol pintado sobre o assoalho, foram espalhados vários cartões-postais. Em vez das apresentações usuais, os participantes foram orientados a escolher uma figura que representasse seu estado de espírito naquele momento. Eu me decido por uma vista do rio Sena, me sinto como se estivesse de férias. Deitados de costas, “percorremos” mentalmente nosso corpo. Esse primeiro exercício é chamado justamente de body scan.
Guiados pela voz da psicóloga Petra Meibert, que coordena a atividade, o foco de atenção se desloca pouco a pouco, partindo dos pés, passando pelas pernas, torso e braços até chegar à cabeça, procurando “sentir” cada órgão. Mantenho-me concentrado e procuro desconsiderar sinais de cansaço. Mas já na próxima meditação, sentado, esbarro em meus limites. “Sua respiração é uma âncora que sempre o traz de volta para o aqui e o agora”, observa a professora com voz suave.
“Cada inspiração é um novo começo e cada expiração é um desprendimento.” Mal ela faz uma pausa de alguns segundos, meus pensamentos já se desviavam: um redemoinho irresistível de imagens, lembranças e pensamentos. Será que vou para casa no intervalo do almoço ou como alguma coisa aqui por perto? Onde foi que coloquei minha carteira? Eu estava em todo lugar, só não estava ali comigo, naquele momento. “Onde está a sua atenção agora?”, perguntou Meibert.
Ai, fui pego no pulo!, pensei. Petra Meibert ensina meditação desde 2002. Como docente do -Instituto de Atenção Plena e Controle do Stress, ela passou a oferecer também cursos de aperfeiçoamento para terapeutas. E ela não pode se queixar de pouca demanda: a chamada “meditação curativa”, sem a significação espiritual, parece estar na moda. Após ter sido rejeitada por escolas médicas ocidentais como esotérica por muito tempo, houve um boom de tentativas terapêuticas de utilizar exercícios de atenção plena para resolver problemas psicossomáticos, stress, depressões, dependência de nicotina e até mesmo distúrbios de personalidade.
Um passo importante nessa direção foi dado no fim dos anos 70 pelo biólogo e médico americano Jon Kabat-Zinn. Ele defendia que não são as condições externas que causam stress, e sim a forma como lidamos com esses acontecimentos. Com base em sua própria experiência com meditação, Kabat-Zinn desenvolveu um programa de relaxamento com duração de oito semanas, durante o qual o participante deve aprender a “dedicar atenção plena ao momento, sem julgá-lo”.
Ou seja: não procurar atribuir valores a qualquer sensação ou pensamento que lhe ocorrer, classificando-os como bons ou ruins. A proposta é simplesmente observar com benevolência aquilo que está acontecendo no “agora”. E, pelo menos por um instante, abandonar a trilha sempre percorrida pelo raciocínio e pelos sentimentos, desligar o “piloto automático” – metáfora preferida de Kabat-Zinn. Aquele que conseguir fazê-lo en