
A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras.
Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear. Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas.
Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário. Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo.
Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria?
Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses. Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar.
A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal. DISCURSOS VAZIOS Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca.
Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação.
Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediat