
A civilização existe há mais ou menos 10 mil anos. Mas o primeiro ser que dá para chamar de humano apareceu bem antes, há 2 milhões de anos. Era o Homo erectus, nosso ancestral direto. Passamos quase toda a nossa história como espécie tendo de lidar o tempo todo com questões de sobrevivência. Foi 99,5% do tempo na selvageria contra 0,5% na civilização. Nosso cérebro tomou forma nessa realidade. E ainda acha que vive nela, num mundo onde havia duas regras de ouro 1) Não levar desaforo para casa.
Nós vivíamos em grupos de, no máximo, 100, 150 indivíduos. Todo o mundo se conhecia. Então perder o respeito do grupo significava o fim da sua vida – e viver sozinho no meio da savana africana, onde tanto os erectus como nós, os sapiens, passaram a maior parte do tempo, não era um bom negócio (ainda não é, por sinal). 2) Fazer o que os outros estão fazendo. Se todo o mundo sair correndo, corre também. Vai na fé, amigo erectus. O mais provável é que algum predador tenha aparecido e só você não tenha visto.
É para esse instinto de ir com os outros, inclusive, que temos nossos neurônios-espelho, os que fazem a gente sentir o que os outros estão sentindo como se fosse telepatia. São eles que dão a sensação de “vergonha alheia”, são eles que fazem você rir de verdade quando todo o mundo está rindo – mesmo que não tenha entendido a piada, são eles que fazem você gritar “ai” quando vê alguém se espatifando no chão, são eles que fazem uma criança escolher que vai torcer para aquele time de futebol quando você a leva para a arquibancada pela primeira vez.
E também são os neurônios-espelho que levam investidores a fazer besteira. É por isso que a a teoria lá do último post está errada, pelo menos em parte. Ela diz que uma empresa é igual um saco de pão. Ou seja: que a “inteligência” do mercado determina o preço das ações dela. Os criadores dessa tese, a “teoria dos mercados eficientes”, até fizeram uma boa aproximação sobre as forças ocultas por trás do preço de uma ação. Mas a teoria deles não enxerga uma constante universal: a estupidez.
Ela não leva em conta que o cérebro é uma entidade propensa a erros grotescos. Um ramo recente da ciência, a economia comportamental, surgiu nos anos 70 para tentar explicar como a nossa cabeça cria distorções no mercado financeiro. Psicólogos, neurocientistas e economistas têm aprofundado os estudos nessa área nos últimos anos. No começo foram desacreditados. Mas começaram a chamar a atenção depois que a bolha da internet e a crise de 2008 fizeram com que a vida real servisse de laboratório para suas teses.
E hoje essa ciência tem até um nome bonito: neuroeconomia. A neuroeconomia começa com uma premissa: a gente até engana, mas lá no fundo nossa mente é tosca. Ela existe para lidar com o ambiente selvagem do nosso amigo aqui embaixo, seu avô de 80 mil gerações atrás. Vamos voltar, então, ao mundo desse sujeito e considerar a primeira regra de lá, a do “não levar desaforo pra casa”. O instinto de manter uma boa imagem perante o grupo – e diante do próprio espelho – cria uma aberração.
Você fica feliz quando se dá bem e triste quando as coisas não dão certo. Ok. Mas não existe uma simetria aí. O desespero quando algo dá errado é maior do que a alegria de quando dá certo, segundo os neuroeconomistas. Fazer um gol levanta a autoestima, digamos, em 10 pontos. Mas levar um gol do outro time abaixa em 20. Na bolsa é a mesma coisa. Como a aversão à perda é muito grande, investidores tendem a pular fora do barco quando as ações estão caindo, mesmo que percam dinheiro com isso.
É uma atitude irracional: o mais equilibrado seria esperar alguma subida para repor um pouco do prejuízo com a queda e aí, sim, vender. Ainda mais sensato seria mirar só na saúde financeira da empresa por trás da ação e não ligar para a queda de preço caso a companhia esteja bem. Mas não: a tendência é vender no momento de perda justamente para aplacar a dor da perda. E esse comportamento irracional ajuda a tragar o mercado inteiro para baixo na