
“Aqui se passa fome, aqui se odeia, aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.” (Adélia Prado) As festas de fim de ano – puxa, que bom que acabaram – sempre me fazem refletir a respeito das escolhas que fazemos diariamente. Até a minha adolescência, Natal e réveillon foram momentos de confraternização familiar sem precedentes, com festas, viagens e bons encontros. A separação dos meus pais transformou essa época do ano em algo bem próximo do inferno, quando escolhas tinham que ser feitas e o resultado quase sempre era um bocado de dor de cabeça.
Com o tempo, as escolhas de fim de ano passaram a recair invariavelmente em estar o mais longe possível de qualquer um dos “lados” da família que eu agora só “administrava”, elegendo novos destinos junto a novas famílias – as dos namorados. Nelas não havia dúvidas, divisões, lembranças saudosistas, comparações, culpa ou cobrança. Apenas a leve sensação do desprendimento e o reconfortante não-pertencimento. Faz parte do crescimento eleger quem entra para a nossa família – a escolhida, aquela que parece não carregar consigo problemas ou ressentimentos.
O que fazemos, na realidade, é ir atrás de escolhas que nos afastem do sofrimento. Caímos no velho clichê de que toda família é problema e não perdemos tempo no resgate daquilo que para nós já é visto como irresgatável. Batalha perdida sem sequer entrar em campo. Como tudo na vida, família dá mesmo trabalho, e como já trabalhamos muito para ganhar nosso sustento e tentar levar uma existência minimamente digna, tudo o que não queremos é ter mais trabalho nas outras frentes das nossas vidas.
Hoje me vejo num barco parecido: novas escolhas feitas recaem em novas famílias e fito os olhinhos questionadores da minha filha de 10 anos que – a partir desse ano – passará suas festas de fim de ano revezando entre papai e mamãe. Andei, andei, e estacionei no mesmo lugar? Não. O que eu desejo para ela, é que não se sinta culpada porque não passou Natal com a mamãe, ou vai passar o réveillon longe do papai. Em primeiro lugar, isso depende de um pacto bem amarrado de amizade e admiração entre os pais dela – claro.
O que inclusive permitiu que ela pudesse passar muitos Natais com papai e mamãe juntos, mesmo depois de separados. Sim, é possível escrever uma história diferente da minha – mas dá muito trabalho. A partir de agora, o que eu quero é que embora não esteja com papai e mamãe juntos nas festas de fim de ano, ela tenha a oportunidade de escolher sem a sensação de Sofia no clássico de William Styron. Cabe aos adultos – que, afinal de contas, a colocamos nesse lugar – não lhe causar sofrimento desnecessário com nossas carências e as próprias culpas não resolvidas.
Mas mais do que isso, o que eu gostaria de mostrar para ela é que, sim, escolher é crescer. Escolher fará parte de cada momento da sua vida, para sempre. E que nem sempre escolher o mais fácil a fará mais feliz. A frase é batida, mas a vida não tem mesmo ensaio. Ou seja, “já é”, como dizem hoje em dia. Uma professora de literatura, Elizabeth Duque Estrada, vai ainda mais longe e costuma dizer que vivemos nossas muitas reencarnações em vida. Diante disso, escolher o difícil nos ensina a construir bases fortes, a ganhar musculatura.
Desistir da família e correr para a casa de um namorado ou de uma amiga qualquer pode parecer um alívio, em alguns momentos, mas nos tira a chance de amadurecer e investir energia e emoções em relações que, sim, podem valer à pena. Sim, família não é aquela que aparece nos nossos documentos e registros oficiais: são as relações que efetivamente cultivamos, nas quais investimos, nas quais escolhemos colocar energia. Mas a família dos registros oficiais também não é só problema.
Hoje penso duas vezes antes de desistir de investir em relações humanas – sejam elas quais forem – porque encaro de frente as muitas fraquezas que eu mesma tenho, e as muitas e muitas vezes em que precisei que as pessoas que eu amo não desistissem de mim. Claro que vou me esforçar par