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O HOMEM REDUZIDO - Robert Kurz

Por Cult Carioca · fevereiro 01, 2017
O HOMEM REDUZIDO - Robert Kurz

Ciências e economia se unem hoje contra a reflexão crítica sobre a sociedade Quando o físico e romancista britânico Charles P. Snow avançou em 1959 sua tese das "duas culturas", com ela não somente conquistou um eco universal, mas cunhou também um topos da discussão cultural e sociopolítica. As "duas culturas" são a oposição entre os mundos da ciência humana e da literatura, de um lado, e, de outro, os da técnica e da ciência natural, mundos estes que, desde o século 19, se apartam cada vez mais.

A controvérsia que se instaurou a respeito, todavia, permaneceu um tanto superficial. Isso porque o problema decisivo, a radicação das duas "culturas" antagônicas numa determinada ordem social histórica, quase não foi posto em litígio. O debate sobre a tese de Snow referiu-se mais à relação das ciências naturais com a literatura e a filologia, e menos à relação das ciências naturais com a teoria social. Snow, é verdade, ao complementar seu estudo em 1963, admitiu que talvez se pudesse ainda falar de uma "terceira cultura", mas isso não passou de um comentário marginal.

O discurso sobre as "duas culturas" toldou, nesse sentido, o verdadeiro problema, ao concentrar-se não numa luta por posições entre as ciências naturais e as ciências humanas, mas na relação polar entre as ciências naturais e os procedimentos artístico-literários. Essa oposição pôde assumir o aspecto de uma desavença familiar dentro da intelligentsia burguesa, na qual a ciência natural, uma espécie de irmã mais velha ajuizada, levava a melhor sobre os representantes da "intelligentsia estética", a quem se podia facilmente tachar de "analfabetos da ciência".

No fundo, o debate sobre as "duas culturas" já pressupõe que "a" ciência seja a ciência natural. A possível batalha pelo primado entre a teoria social e as ciências naturais foi decidida a favor das últimas, antes mesmo que pudesse ter início. A questão da "terceira cultura" foi em grande parte ofuscada. Como mostrou a "querela do positivismo" na sociologia alemã -travada também nos anos 60 entre os minoritários da "teoria crítica" de Adorno e Horkheimer, de um lado, e, de outro, a ciência humana oficial-, o "mainstream"

das ciências sociais há muito se pôs do lado dos fundamentos e métodos ditados pelas ciências naturais. Ao emancipar-se desse positivismo das ciências naturais e converter-se em crítica radical da sociedade ou implicar essa última, no fundo a teoria social deixa de ser uma "disciplina" acadêmica. Isso se deve, claro, ao caráter institucional do próprio modelo científico, que por sua forma é "ritualizado" à moda burguesa e não possui vocação de crítica radical, sendo antes parte integrante da ordem vigente com sua falsa pretensão de objetividade.

Se no declínio da ordem pré-moderna foram sobretudo as novas ciências naturais que, modificando a concepção de mundo, causaram escândalo e acabaram perseguidas pelas autoridades, durante a história de modernização capitalista foi a teoria social, por sua vez, que passou a ser objeto potencial de perseguição, fosse diretamente pelo Estado e pela polícia, fosse mais sutilmente pelos critérios restritivos (tanto de conteúdo quanto de método) da "reputação científica".

Por isso, inovações relevantes da crítica social na modernidade, semelhantes -na forma- à criativa "boemia" artística, não raro surgiram fora ou à margem da ciência oficial, a exemplo de Rousseau no século 18, Marx no século 19 e a "Teoria Crítica" ou mesmo os situacionistas franceses (Guy Debord) no século 20. O neomarxismo acadêmico dos anos 70, boa parte dele estéril, só pôde dissimular por alguns momentos -fenômeno da moda que era- o fato de a teoria crítica da sociedade no fundo representar pouco mais que uma "gata borralheira"

da academia, como já se evidenciara no debate mais ou menos paralelo sobre as "duas culturas". Hoje a crítica radical da sociedade desapareceu quase totalmente da ciência acadêmica. Como último resquício de um pensamento social irredutível ao paradigma das ciências natu

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