
Salve, reino animal: todo o peso celeste suportas no teu ermo. Toda a carga terrestre Carregas como se fosse feita de vento. Teus cascos lacerados na lixa do caminho e tuas cartilagens e teu rude focinho e tua cauda zonza, teu pelo matizado, tua escama furtiva as cores com que iludes teu negrume geral, teu vôo limitado, teu rastro melancólico, tua pobre verônica em mim, que nem pastor soube ser, ou serei, se incorporam num sopro. Para tocar o extremo de minha natureza, limito-me: sou burro.
Para trazer ao feno o senso da escultura, concentro-me: sou burro. A vária condição por onde se atropela essa ânsia de explicar-me agora se apascenta à sombra do galpão neste sinal: sou anjo.