CULT CARIOCA cultcarioca.blogspot.com
Crônicas · Contos · Poesia · Neurociências · Filosofia · Comportamento · Tecnologia · Música

MARCIA TIBURI - As pessoas têm medo de falar o que pensam

Por Cult Carioca · dezembro 11, 2012
MARCIA TIBURI - As pessoas têm medo de falar o que pensam

A Luana Piovani era uma bobinha do mal. A Maitê Proença é a Luana Piovani vezes dois. A Betty Lago era divertida, mas uma bobalhona. Marcia Tiburi senta a pua no que identifica como males de nossos tempos: o pavor generalizado de dar opinião, a caretice moralista. Sua participação no programa Saia Justa resultou em livro sobre experiência e hiperexposição na mídia. Gaúcha, a filósofa Marcia Tiburi é discreta e calma, dedicada aos amigos e à filha adolescente, Maria Luiza.

Quando não está escrevendo ou pintando em casa, divide seu tempo entre palestras Brasil afora com as aulas na Universidade Mackenzie, em São Paulo, onde é professora do programa de pós-graduação em arte, educação e história da cultura. Mas favor não confundir esse perfil centrado com uma personalidade anódina, insossinha. Marcia se transformou em uma filósofa pop, capaz de atrair audiências maiores do que seu nicho de atuação, porque opina, mas opina mesmo.

Já era assim em 2005, quando aceitou o convite do canal por assinatura GNT para participar do programa Saia Justa. "Foi tão maluco quanto alguém hoje me chamar para andar de skate ou aprender surfe", conta, divertindo-se. "Não tenho nenhum prazer em ver televisão, não gosto do barulho." Ela sacou que a empreitada podia ser importante e lá se foi. A experiência diante das câmeras e justo num programa com um quê testemunhal, em que as participantes vão dando opiniões e, de lambuja, falando de suas vidas durou cinco anos.

Tempo suficiente para ela lapidar uma reflexão sobre o papel da TV na sociedade brasileira. O resultado está no livro Olho de Vidro: A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem (Record, 352 págs.), um estudo que vai da análise da experiência visual a questões como alienação e hiperexposição na mídia. Marcia afirma que o tempo de convivência com as outras participantes do programa a ajudou também a desenvolver uma concepção de feminismo "por solidariedade", como diz.

"Percebi que as próprias mulheres denigrem as mulheres", afirma, emendando críticas às demais participantes. "Nem todo mundo ali sabia o que significava o debate. A Maitê Proença é a Luana Piovani vezes dois. Era insuportável. A Betty Lago era divertida, mas uma bobalhona", dispara. Nesta entrevista, concedida em seu apartamento, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, Marcia fala também sobre redes sociais e a "moralina", a droga da moral. "Estamos dopados", diz.

No livro, você fala muito da hiperexposição na TV. Como você lidou com ela nos cinco anos em que esteve no Saia Justa? MARCIA TIBURI: Nunca tive problemas em falar o que penso, nem em falar da minha própria vida, porque as duas coisas, para mim, estão juntas. Não conto aspectos da minha vida íntima, mas ali, no programa, era uma exposição de ideias. E, às vezes, falo coisas com as quais as pessoas não concordam. No Saia Justa, em vários momentos, fui na contramão do senso comum.

Eu sou muito na contramão do senso comum. As pessoas podem me acusar de ser do contra, mas porque elas só sabem dizer sim. Para não dar uma opinião, eu preciso ficar quieta. Se não a quiser, não me peça. E como foi a experiência do debate no programa? Eu não tinha o tempo necessário, pois ali era o tempo da televisão. E, apesar de ser uma ideia bacana, um programa de debate entre mulheres fica ainda mais confuso pior ainda quando essas mulheres não estão acostumadas ao debate.

Com todo o respeito, nem todo mundo ali sabia o que isso significava. Era de lascar. Eu não queria que elas concordassem comigo, mas, pelo amor de Deus, que apresentassem um argumento válido! Ouça o argumento e coloque-se no lugar do outro para debater. Eu sou feita disso. No fim, qual foi o resultado? Participar do programa me deixou muito feminista, porque o grupo era muito conservador. Eu não era feminista e fui ficando cada vez mais, por uma necessidade de marcar um lugar de compreensão política do que significa ser mulher. No Saia Justa, percebi que as próprias mulheres denigrem as mulheres. Para mim, fazer isso foi

Explore por Tema
Os Mais Lidos