CULT CARIOCA - Artes e Conhecimentos cultcarioca.blogspot.com
Crônicas · Contos · Poesia · Neurociências · Filosofia · Comportamento · Tecnologia · Música

VIDA, ME EMPURRE QUANDO EU TRAVAR - Mônica El Bayeh

Por Cult Carioca · fevereiro 20, 2019
VIDA, ME EMPURRE QUANDO EU TRAVAR - Mônica El Bayeh

Quando passou pelo portão, as ideias passaram todas juntas também. Numa revoada barulhenta. Ideias querendo dar sua opinião. Lembrou de quando recebeu a notícia de que ia ter que se transferir. Perdeu o chão. Como assim? Tinha direitos, não tinha? Não. Na verdade, alguns direitos só existem quando são de interesse de quem está no poder. Aprendeu essa também. A vida toda estruturada. Estava ali porque era mais cômodo, mais perto. Feliz? Com certeza não.

Jamais seria feliz ali. Mas o desconhecido assusta. E mudar às vezes dói tanto… E se fosse pior? E se fosse mais longe? E se não gostasse tanto? Foi tratada como lixo, um traste jogado fora. Um enfeite que, agora, mudado o estilo da decoração, não agradava mais. Depois de tantos anos e toda dedicação. Se sentia desrespeitada. Sentiu não. Foi mesmo – e muito. Na impossibilidade do momento, decidiu: não lutaria contra. Ia se deixar levar. Iria ao sabor do vento, como folha solta no ar.

Alguém, em algum lugar, com algum nome, haveria de protegê-la. Confiou. Lembrou da Alice no País das Maravilhas perguntando: - Gato, onde é a saída? - A saída depende de onde você quer ir. Para onde ela queria ir? Para onde fosse bem tratada, só isso. Só desejava ser bem tratada. Ali, nunca havia sido. E, vamos combinar, ser bem tratada é o mínimo de dignidade que se pode esperar de qualquer tipo de relação, seja ela qual for. Mudou. Como forma de complementar o horário, foi parar em dois lugares diferentes.

Ambos muito bons. Adorou. Tem sido sim, muito bem tratada e está feliz. Reestruturou a vida. Se livrou de um peso, quase um encosto. Sua vida não se arrasta mais. Agora sua vida voa. Eis que, por ironia da vida, ela teve que voltar lá para uma reunião. Naquele instante, parada em frente ao antigo portão, reviu toda situação. A vida é assim mesmo, irônica, debochada, um prato cheio de sarcasmo. Apronta cenas mais escrachadas do que novela mexicana.

Situações que a gente olharia com reservas e acharia forçação de barra. A vida faz dessas com a gente. E, provavelmente, se diverte assistindo a cada capítulo. Somos sua novela mexicana. Há que se ter bom humor com ela também. Não há outra saída possível para manter um nível razoável de saúde mental. Naquele retorno, encontrou amigos antigos, queridos. Ouviu as mesmas queixas de antes. Queixas que haviam sido suas também. A oportunidade se abriu para todos, muitos foram.

Mesmo assustados, meio perdidos, desamparados, aceitaram o desafio e se lançaram no vácuo, sem garantias. Muitos não foram. Cada um com seus motivos. Não estava ali para julgar. Ela tinha ido. Esse era seu alívio. Pensou em como estaria, se não tivesse mudado. Se, por medo do desconhecido, tivesse permanecido estagnada, como antes. A vida é um tipo de trem. Chega na pressa, desembarca uns e embarca outros. Não anuncia o destino abertamente. Você entra sabendo que é por sua conta e risco.

A outra opção é ficar na plataforma vendo a vida passar, na triste postura de dar adeus aos que vão. E depois voltar para casa. Retornando para o mais do mesmo. Talvez a vida abra uns portais, eventualmente. E convide – vem? – desafiando, instigando, pagando para ver a capacidade de cada um. Então aguarda por certo tempo para que se tenha coragem de pular, se jogar. Se a gente resolver investir e embarcar, ela cobre a aposta e vai junto ao infinito – e além.

Se a gente fica na retranca, empaca, desiste, o portal se esfumaça e se desfaz. Aquela saída se fecha. Até uma próxima oportunidade… Ou não. Quem sabe? A vida é jogo de aposta. Não se sabe o fim. Nem onde vai dar, nem os resultados de cada rodada. Viver é pular no escuro. Planejamentos, contas, mapas, tabelas, roteiros, tudo pode ajudar e até dar certo. Apenas pode. Então, a gente para, pensa, programa. Mas, na hora do vamos ver, é ir ou ficar, sabendo do risco.

De qualquer forma, sempre é preciso apostar em alguma coisa. Ficar de fora já é uma opção de aposta. Não esboçar atitude já é uma atitude. Quando você se omite e não faz a escolha já está f

Explore por Tema
Os Mais Lidos