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MARCIA TIBURI - XXY, ou adivinha quem é a mulherzinha?

Por Cult Carioca · fevereiro 27, 2013
MARCIA TIBURI  - XXY, ou adivinha quem é a mulherzinha?

As duas engenheiras viviam muito bem dividindo as tarefas em um laboratório da universidade. Uma era a chefe; a outra, aluna e admiradora. Vamos chamar a chefe do laboratório de X e a técnica de X1. X1 fora aprovada em um concurso para um cargo técnico por seus méritos como pesquisadora, currículo, experiência, aquelas coisas todas. Como eram doutoras e uma mais estudiosa que a outra, logo X e X1 se tornaram grandes parceiras nos trabalhos do cotidiano acadêmico.

E viviam, X e X1, muito felizes. Até que um dia, havendo uma vaga para o mesmo cargo técnico que X1 ocupava, foi aprovado um homem que veio trabalhar no laboratório. O homem, vamos chamá-lo de Y, pois é importante que estejamos atentas ao senso de abstração que uma história dessas requer. O homem, daqui para frente chamado de Y, pois bem, era um corintiano praticamente fundamentalista. Sendo corintiana a maior parte da população masculina do Brasil, não há nada demais nisso.

Torcedor alucinado do seu time, Y também jogava futebol toda semana e assistia aos jogos de outros times. Poderíamos dizer que Y é um homem típico, mas isso nos faria cair na perigosa formulação do essencialismo em que os diferentes não são contemplados, por isso é mais adequado dizer que se trata de um “tipo de homem”. Fato é que Y é um tipo de homem muito simples: gosta de cerveja e de mulheres, entendendo, de tanto ter visto as propagandas de cerveja que o formaram subjetivamente, que esta é uma equação em que os termos são necessariamente ligados um ao outro.

E isso porque esse tipo de homem que Y é tem um pequeno probleminha relativo ao seu jeito de adquirir conhecimento: ao aprender algo, não aceita mais opiniões diferentes sobre o assunto. Em resumo, isso quer dizer que Y é autoritário. Aí começa o nosso problema, como espectadores dessa cena. Y, sendo apenas graduado, foi trabalhar num laboratório onde há duas mulheres, X e X1, que são doutoras. Ele não entende que a equação mulher + cerveja não esteja exposta diante dele quando trabalha com elas.

Não é apenas a característica gnosiológica de Y que fica comprometida neste momento. Sabemos, nós que assistimos à cena, que todo aprendizado tem relação com os afetos, e, portanto, é mais do que claro que as emoções de Y estão intensamente presentes, inclusive sua compreensão falsa sobre as mulheres e seu autoritarismo fazem parte disso tudo. Pergunta que nos fica: se Y é autoritário, ou seja, aquele que acha que tem razão em tudo, como fica diante de duas mulheres doutoras, ou seja, que têm mais experiência e conhecimento que ele?

Para compreendermos o que se passa, vejamos alguns detalhes importantes. Já sabemos que X1 é doutora e Y não. Precisamos saber que X1 tem senso de duas coisas que chamaremos aqui de “coleguismo” e “profissionalismo”. Logo, X1 sabe que, mesmo não admirando o modo de ser de alguém com quem convive, ela precisa ser moral ou eticamente correta em relação a esta pessoa, no caso Y. E este senso moral e ético implica ajudar Y no próprio trabalho, posto que estando há mais tempo no serviço, tendo experiência com as máquinas, e tendo feito pesquisa de ponta que lhe rendeu seu doutoramento, X1, de fato, tem como orientar Y nos procedimentos técnicos diários.

E assim o faz, mesmo percebendo os vastos limites de Y. E Y, por sua vez, pode aproveitar tudo isso para seu desenvolvimento profissional e, até mesmo, pessoal. Acontece que sendo Y um tipo de homem autoritário, ou seja, dono de um duplo suposto saber, tanto sobre as mulheres quanto sobre seus conhecimentos adquiridos em geral na ciência onde se graduou, sente-se ofendido por estar justamente sendo orientado ou, em alguns casos, contestado por uma mulher, no caso X1.

No laboratório, vemos Y dar um soco na parede, rasgar formulários, ficar vermelho de raiva, gritar, atirar longe o jaleco e sair pisando firme porta afora… Isso quando X1 se aproxima dele avisando-o de que está cometendo um erro no procedimento. No outro lado da cena, vemos Y entrando no gabinete de X, após um

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