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O CEMITÉRIO DE ESTRELAS - Arnaldo Jabor

Por Cult Carioca · dezembro 10, 2013
Arnaldo Jabor

Hollywood é um luminoso cemitério de estrelas. É um cemitério de beijos e olhos e corpos embalsamados no tempo da película Meu Deus, que saudade do cinema! Que saudade do sonho, da utopia fílmica dos anos 1950 e 60, sacralizada pela “Cahiers du Cinéma” e pelos círculos de fumaça dos Gitanes sem filtro. Atualmente, a cinefilia soa como um vício sexual. Hoje o cinema é nu. Está exposto nas lojas, feiras e bancas de jornais, na ponta dos dedos dos insones, está rodando bolsinha nas ruas.

Tenho saudades da sala escura, do cinema segredo, o cinema dos pobres tímidos, punheta dos rapazes feios, o cinema como realidade alternativa. Como era bom esperar um filme do Fellini, a cada ano, e o novo Antonioni, e o novo Godard... Não chego a ser um cinéfilo puro. Faltam-me o gosto arquivista, o amor às fichas técnicas remotas, o mundo das fofocas de Hollywood. Cinéfilo era o Manuel Puig. Li, outro dia, que Puig estava morrendo em Cuernavaca.

Uma de suas “filhas”, Yasmin (uma bicha “filha” dele com o Ali Khan, pois Puig se imaginava a Rita Hayworth), chorava à beira do leito achando que Puig já entrara em coma. Mas, na esperança, testou os sinais vitais de sua “mãe”. Falou-lhe: “Mãe..., ontem eu vi ‘Stella Dallas’, do King Vidor. Chorei tanto...”. A “mãe” Puig balbuciou do leito: “É... a Barbara Stanwick está bem, mas o John Boles nunca me emocionou...”. Yasmim, a bicha cinéfila, caiu em prantos de felicidade: “Mamãe está viva!”.

O cinema era a “síntese das artes”. E todo mundo pensava: “Qual é a alma do cinema? O que é o cinema?”. Sempre que me perguntam isso, eu me lembro de Humberto Mauro, que conheci já velhinho. Para Humberto Mauro, o célebre cineasta-fundador dos anos 1920/30, “cinema é cachoeira”. Por quê? Vou contar aqui de novo. Quando ele fazia seus filmes na Cinédia do Rio, todo amigo que ele encontrava na rua dizia: “Humberto, você precisa é ir no meu sítio lá em Correias filmar a cachoeira que tem lá!

Você precisa ver que cachoeira!”. E o Humberto Mauro ficava com aquilo na cabeça: “Por que querem que eu filme cachoeiras?”. Um dia, ele estava dando uma palestra para uns cinéfilos de um cineclube do interior quando, já na estação, atrasado para pegar o trem, um garoto agarrou-o pelo paletó e perguntou-lhe sobre o grande enigma: “Seu Mauro, afinal de contas, o que é a ‘alma’ do cinema?”. E o velho Mauro, correndo atrás do vagão que partia, deu a grande definição: “Cinema, meu filho, é cachoeira!”.

Hoje, ninguém pergunta mais isso. Tantas são as formas de reprodução da imagem, tanta é a virtualização da realidade, que talvez a pergunta devesse ser feita por alguém na tela, algum fantasma projetado na tela nos perguntando, invertidamente: “Ei, você aí!... O que é a realidade?”. Hoje, vemos que a “máquina do mundo”, quanto mais aberta é, mais vazia e misteriosa. A fome de decifrá-la, digitalizá-la, matematizá-la, descreve-a, mas não a condensa.

Por isso, a ideia de cachoeira é a metáfora melhor de cinema. Esta imagem “heraclitiana” de uma água que não para de fluir é ótima para definir nossa ex-sétima arte. Por isso, os amigos de H. Mauro, na sua sabedoria para o óbvio, diziam no botequim: “Vai filmar minha cachoeira!”. Só o movimento tem de ser filmado. Só as cachoeiras da vida têm de ser retratadas na busca de alguma verdade. Não há uma realidade que finalmente pare e se configure. Buscá-la, tanto na arte quanto na política, é fracasso certo.

Esse foi o aprendizado do século XX. Tentou capturar o vasto e incessante universo em fórmulas que o esgotassem e nada ficou preso. Por mais que queiramos que o cinema seja a arte de captar a vida, o cinema é a arte da morte. Henri Bergson, ao ver o “cinematógrafo” pela primeira vez em Paris, deu a grande definição: “O cinema é importante, para que se veja e se saiba no futuro a maneira como os antigos se moviam”. É isso aí. Cinema é o que se passa dentro do plano, a ação entre as pessoas e as coisas, para além do que contam os roteiros. Há uma “fisicalidade” no cinema em que as coisas brilham

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