
F ui acordado naquela madrugada pela música que conhecíamos tão bem, trilha sonora do nosso amor inesquecível, vinda da janela à frente, atravessando a cortina iluminada pela tênue luz amarela, revelando a silhueta esguia a insinuar-se para mim. Sabia que era você, mesmo depois de trinta anos continuava bela e desejável como sempre. Podia vê-la sentada, apoiando os calcanhares ligeiramente afastados sobre o parapeito daquela janela. Suas mãos deslizavam por entre as coxas dizendo em carícias que eu ainda morava ali.
Pude sentir o gosto de seu sexo em minha boca e seus dedos molhados percorreram meus lábios como quisessem escrever, eu te amo. Solidão, amargura e rancores apagaram as luzes, não mais pude vê-la, só o choro ecoava pela janela de seu quarto. Não sei por que te abandonei um dia, privação dos sentidos, medo talvez... A verdade é que se passaram trinta anos assim, num piscar de olhos. Curiosamente, meu reflexo no espelho não acompanhou esse período, continuo jovem como sempre, com a mesma irreverência no olhar que a fez apaixonada por mim.
No dia seguinte decidi segui-la, acompanhar sua rotina, descobrir você. Há alguns passos atrás observava seu andar contido, que tentava esconder aquela outra mulher que conhecemos tão bem. Poderia até adivinhar a lingerie que usava sob a saia comportada, provavelmente vermelha, mínima, de puta. Às vezes, parecia olhar sobre os ombros como estivesse a minha procura. Ao entrar naquela loja de calçados escondi-me do lado de fora, de maneira que só eu pudesse observá-la.
Percebi que ainda gostava dos scarpins salto médio, couro legítimo e levemente afilado nas pontas. Mulher de bom gosto se conhece pelos pés, das unhas até aos sapatos. Foi quando em um descuido proposital no cruzar de pernas você confirmou minhas suspeitas: vermelha, mínima, de puta. Mais uma vez aquela música me chamava às janelas de seu quarto agora se mostravam completamente abertas. Pude vê-la vestindo um penhoar transparente que revelava a silhueta nua daquela fantástica mulher de cinquenta.
Então a cena se repetia calcanhares na janela, pernas displicentemente afastadas me convidando para entrar. Seu desejo então veio ao meu encontro e quando percebi não havia mais distâncias entre nós, o que conhecia como meu espaço agora se transformava naquele lugar que antes observava. Da mesma forma, já era difícil distinguir minha própria geografia, vi-me estimulando meu órgão feminino enquanto aquele, que há pouco considerava ser eu, manipulava o membro rijo de desejo à minha frente.
Pude sentir o prazer fluindo do meu corpo como o único fragmento daquele amor antigo, o prazer que me trazia de volta a sua vida e depois a arremessava em um vazio profundo, vazio esse que corroia a alma, me fazendo lembrar o quanto fui nocivo, mas que ainda entendia como ninguém seus pensamentos. Alguns dias depois te vi de mãos dadas nas ruas, cabelos grisalhos e sapatos bem engraxados compunham a imagem do homem formal ao seu lado. Gestos suaves ao abrir a porta do carro se diferenciavam daquele que a mandava subir na garupa e arrancava para um lugar qualquer.
Este homem que te leva para casa não sabe os caminhos de seu corpo... Mesmo assim vou continuar por perto, atenderei ao chamado nostálgico de seu olhar. Sei que irá deixar a porta de sua casa entreaberta, para que eu possa me esconder naquele lugar que reservou carinhosamente para mim. Pude então observar aquele homem a colocar Billie Holiday na vitrola, girar elegantemente a taça de vinho e sorver o bouquet. Suavemente acariciava sua face e dizia o quanto lhe amava.
Porém, seus olhos que conhecia tão bem não me enganaram, trocaria tudo isso por um bom e sonoro tapa na bunda. A meretriz que há trinta anos se esconde sob sua pele surgiu das entranhas. Seu corpo pedia o escracho, a violação extrema, a falta de respeito para com todos os orifícios. Repentinamente materializei-me sobre você e te levei por lugares que só nós conhecíamos. Como no dia em que fizemos amor à frente daquela cria